A Alma Inicial


“Então escrever é a arte de usar a palavra como isca; a palavra
pescando o que não é palavra..”.

(Clarice Lispector)

Compor palavras para mim não é arte, é uma obrigação que contraí comigo
mesmo desde que me vi submerso num oceano de letras. Isso faz tempo.

O primeiro livro não escolar que recordo ter lido, e que ainda possuo,
é “A Trilha da Caverna Esquecida”, do gaúcho Enio Chiesa. Meu pequeno
tesouro em forma de livro infanto juvenil, cujo pano de fundo são as
aventuras e desventuras de uma classe de estudantes. Um livro de formação
moral de jovens, tal qual os escritos por Albert Schweitzer nos idos da
década de 1940.
Há muito não o releio; talvez para manter em guardado algum orvalho da
juventude que se afasta à passos largos; talvez por supor que assim fazendo,
preservo também minha alma inicial.

Pensando melhor, são os livros que me possuem, desde sempre. E fui, ao longo da
vida, muitas outras vezes refém voluntário nesses raptos celestes.

Não entendi os escritos de Clarice tão logo os vi. Sentimentos rebuscados
e ao mesmo tempo tão simples, que só muito mais tarde entendi tratar-se
de palavras infantis escritas aos adultos que seríamos depois; para que estes, nós,
ao estranhar a súbita pequenez das próprias mãos, se maravilhassem com a vastidão
de um mundo já então pequeno, mas que tinham ainda vasto dentro de si.

Como num encontro casual, do qual muitas vezes não saímos ilesos, o reencontro
com Clarice aviva o “nosso” mundo interior da Mestra ucraniana:

“Ele na sua natureza aprisionada, ela na sua infância impossível…Ele foi mais
forte do que ela, em nenhum só momento olhou para trás”.

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3 comentários em “A Alma Inicial

  1. O meu primeiro livro não didático foi o Caso da Borboleta Atíria da Lúcia Machado de Almeida … Incrível como as palavras conseguiam formar imagens na minha imaginaçãozinha de menina e com isso, aos poucos, foram despertando o gosto de ler e ver o mundo sem sair do lugar…
    A leitura é um bem de valor imenso que deve ser incentivada e estimulada sempre.

    • Querida Helen, também li (e reli várias vezes) “O caso da Borboleta Atíria”, o mesmo aconteceu com “O Escaravelho do Diabo”, “Tonico”, e muitos outros títulos da maravilhosa Série Vaga Lume, da Ed. Ática. Colecionei quase todos.
      Valeu a lembrança!

  2. Como capturar a essência do que foi escrito…é excelente poder desfrutá-las, sugá-las e aplicá-las no cotidiano do dia a dia…

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