Os Muitos trabalhos de Zércules


O Primeiro trabalho de Zércules foi logo o do próprio parto, que pode bem nem contar, por não ter sido todo dele; mas em que ajudou, ajudou, e muito.
Sabe lá o que é nascer de mãe menina, num sertão qualquer do Brasil?

Nhá parteira depois lhe disse que ele já nasceu com cabelos e dentes.
Dos cabelos soube logo a serventia: piolhos. Dos dentes só descobriu após quatro anos de idade.

Com três quilos de peso, cabelos e dentadura, Zércules era grandinho, e toda gente admirava.
Não demorou pro menino quase morrer de quebranto; veio preto benzedeiro, teve reza, teve canto. O menino resistiu, como não era de costume.
“Milagre de Deus”, diziam as antigas. E o menino sessorria.

Aos três anos já varria o terreiro seco, quando pegou barriga dágua; dizque
a dinda dessa feita lhe rezava ao pé do ouvido: “Se é pra viver como bicho,
que fique de vez menino”.

Pra variar, Zércules ficou meio bom; porque ali ninguém era de todo são.

Rapadura com farinha é que faz Homem. Dizia a tia, ao ver o menino taludo. De fato dos zero aos quinze, com exceção das folhas de Palma e uma carne de boi magro nos arroubos do Coronel, esperança era quase todo seu alimento.

A mãe morreu de febre quando lhe aparecia o buço. Tomou de conta dos irmãos trabalhando na lavoura de cana do Coronel. Todos faziam isso. Desde sempre.
Quase de sol à sol carpia as canas e a vida. Vivia ainda só de esperança.

Conheceu Lindalva – o nome lhe cabia bem: pele clara, cabelos idem, olhos
bem abertos para a vida – perto de completar tempo. Faria dezessete anos e
já se tornara Homem numa vez que fora à Vila. Lindalva ainda não era mulher.
Mas ele a via como mãe, e mulher. E ela também se via assim.

Não deu tempo de casar, e não haveria mesmo o casório. A Igreja era cara, e a pressa era muita.

Na casa nova de adobe, dizia ao filho o pai recente: “Esse vai ser mais que eu, esse moleque vai ser gente!”
Nessas horas de amém, Lindalva erguia uma prece e baixava os grandes olhos De gente…

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3 comentários em “Os Muitos trabalhos de Zércules

  1. Essa era a cara do Brasil dos tempos idos; porém, só os um ingênuo acharia que já esta extinto…
    Gostei do conto e do modo de contar…Já disse q vc eh meio poeta, né?

  2. Muito bem redigido, num linguajar popular e pitoresco, que caracteriza e define a vida dos brasileiros pobres e desassistidos,principalmente do norte e nordeste brasileiro, onde não existe nenhum tipo de saneamento, saúde, educação e exercício da cidadania.
    Se quiserem estudar precisam andar horas à pé…
    Resta apenas a esperança…do filho ter uma vida melhor!
    São estes cidadãos que recebema bolsa-família do governo Lula e que a elite tanto critica…
    A FOME E A MISÉRIA DESTROEM O SER HUMANO!

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