Pré delíquio


Eram dias de festa na Vila. Dias do Santo padroeiro, que dera nome desde às crianças bem nascidas até aos borregos dos sítios afastados. E de longe vinham as gentes, recebidos como alegres comensais.

Rojões espoucavam de quando em quando, causa das urras dos meninos e dos impropérios das caboclas mais antigas. Cachorros corriam, sem destino mais certo do que o de evitar os frequentes pisões dos passantes no andar pelas casas.

Nessa correria febril, ninguém perceberia a calma quase melancólica de Angélica, destoando da excitação geral.

Na tardinha, os filhos dos fazendeiros, vindos da capital com suas namoradas e amigos, desfilavam pela praça da matriz, à bordo de barulhentas carroças puxadas por juntas de bois, acenando ao público.

-Não pode! – dizia uma moça; deveriam desfilar com os seus carros da cidade, pra gente olhar! Isso de andar de carroça de bois é coisa de matutos. Querem é esnobar a gente, dizia outra. Mas todas e todos se encantavam com o mundaréu de gente que assomava à pequena Vila.

Vestida simplesmente – como ditava sua condição – Angélica preparava na cozinha o que seria servido aos convivas no almoço do dia seguinte: as mais gordas galinhas do terreiro; Codornas, leitões, dois carneiros carnudos, a infalível rês; e um jabuti cozido com farofa e limão, agrado ao Comandante José Soares, que vinha do norte. A todos os ìtens Angélica deu especial atenção, como se fosse a última vez. Como se fosse a primeira vez.

À degustar os acepipes, no alpendre; o Compadre – que no correr da Parati já era tratado como Barão ou Coronel – mandava vir da cozinha mais e mais comidas. Estas eram entronizadas como delícias indispensáveis. Nada mais nem menos do que a obrigação de um bom anfitrião. E os copos e bocas cheias erguiam outros Vivas ao generoso Beneficente.

‘Só nessa rede fiz três!’ – falava sobre os filhos bastardos o já rico e insolente Barão, balançando na rede nova rendada – ‘Em outras mandei enterrar os desafetos!’, concluiu com gestos largos; agora valente também.

Angélica ouvia isso, despresente como estava, amolando uma faca de ponta, pronta; lembrando de outras crias que tivera de imolar à mando daquele Homem. Mas ela não podia guardar mágoa: aquilo foi coisa da sorte – sempre dos outros; e das dores – sempre suas.

Naquela noite, Angélica foi até a rede nova do Coronel, e o preparou para o dia seguinte.

By Eudyr J.

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6 comentários em “Pré delíquio

  1. Dy, as típicas ocorrencias nordestinas de um tempo onde os chamados
    “coroneis”, realizavam coisas inadmissiveis. Mas será que ainda não ocorre?
    beijos.parabens!

  2. Passei aqui para lhe deixar uma dica. No meu blog tem um link para o Site de Severino Coutinho. Passe la para dar uma conferida, acho que vai gostar.
    Ja tentei lhe enviar esse recado antes, mas houve problemas com o comenterio e nao foi publicado, nao sei se vc o recebeu.
    Abcs
    H.

  3. Pobre Angélica; sofrida, maltratada e, no fundo, revoltada!
    Com um marido assim, tão canalha e pomposo, não restava outro fim.
    Foi-se, para sorte dela ou azar?

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