Tapirus entrevista um OVNI (*)


Tapirus entrevista OVNI, Piloto Gaúcha que aos 20 anos de idade diz que ‘A profissão de piloto comercial requer, acima de tudo, muita paixão’.


TAPIRUS: E de onde vem essa Paixão?  Como assim, tu dizes?

Acredito que todo piloto tem em comum isso. Provavelmente, quando muito pequenos, todos nós vimos um pássaro e quisemos ser iguais, vimos que era possível, e jamais desistimos da idéia de pilotar uma aeronave. E é por conta dessa paixão que convencemos nossos pais, trabalhamos muito, conseguimos levantar os fundos necessários para pagar as horas de vôo do curso, nunca paramos de correr atrás de contatos para conseguir voar de graça como co-piloto para completar as horas necessárias para que comecem a te contratar numa empresa e, depois de empregados, conseguimos paciência para aguentar todo o stress das nossas escalas de vôo, plantões etc. Sacrificamos o fato de nunca poder ter um compromisso inadiável em nossas vidas, para poder realizar vôos de urgência.

Enfim, acho que todo aviador vive para voar. É uma relação de entrega quase que total de uma vida aos ares.

TAPIRUS:  O que é mais difícil para quem quer realizar o “sonho de Ícaro”: superar a questão material(as aulas não devem ser baratas); superar a questão dos medos, do gênero feminino, ou os problemas que eventualmente ocorrem na aviação civil?

OVNI:  A questão material em primeiro lugar. Na verdade, para simplesmente realizar o ‘sonho de Ícaro’, basta fazer um curso de Piloto Privado (PP), que é a primeira fase para a carreira aeronáutica. Um PP pode realizar vôos visuais para seu próprio entretenimento/uso particular. Agora, se o interessado quiser seguir a frente essa paixão, deverá também realizar o PC (Piloto Comercial). E aí as coisas começam a ficar realmente caras.

Os medos, pressupõe-se que o piloto não tenha medo de voar. Não é possível voar com medo de voar. Durante o curso, somos expostos a situações de risco pelas quais não precisamos passar com muita tranquilidade. E essa é uma característica fundamental do piloto: tranquilidade.

O fato de ser mulher nunca me impediu de nada. É claro que no Brasil existem poucas mulheres nessa área. Mas somos muito bem tratadas. Em outros países, como a Rússia, há uma forte tradição de mulheres na aviação, por exemplo.

Os outros problemas da aviação civil, são problemas que os iniciantes enfrentarão somente quando estiverem trabalhando. Então,

não são nada que venha a impedi-los de realizar o sonho.

TAPIRUS:  Porque então voce não se contentou com os vôos  visuais? O que te levou avante?

Existem restrições fisiológicas para ser piloto?

OVNI:  Não me contentei com vôos visuais, porque desde o começo eu sonhava com a profissão de piloto comercial. Eu ia nos aeroportos e via aquelas aeronaves gigantescas e pensava: “isso é para mim!”. Até hoje um dos meus maiores sonhos é ser piloto de linhas cargueiras.

Quanto às restrições fisiológicas, bem, elas são bastante brandas. Para voar, o piloto precisa de um Certificado de Capacitação Física (CCF), emitido por hospital da aeronáutica. Esse certificado é obtido por meio de exames concretos e existem duas classes. A segunda classe é a menos exigente, requerida para PP, com a validade de 2 anos. A primeira classe é mais exigente, requerida para PC, com validade de 1 ano. De um modo geral, só não são aceitas pessoas com distúrbios mentais ou problemas graves de circulação, do aparelho respiratório, ou neurológicos.

TAPIRUS:  Como voce vê a Aviação Comercial, tanto no Brasil como no mundo, nessa era pós 11/09; as novas empresas e o barateamento das passagens influem na segurança de vôo,? Qual sua opinião?

Como voce vê a infraestrutura aeroportuária do Brasil?

OVNI:  Acho que a Aviação Comercial é um ramo em constante expansão, o que é muito positivo para a carreira. Cada vez mais as pessoas estão optando por voar. No Brasil, concretamente, após a criação de companhias como a Gol, a Webjet, a Azul, entre outras, o transporte aéreo se popularizou a ponto de, muitas vezes, as passagens aéreas custarem mais barato que as de ônibus. E o transporte é realizado com mais segurança, mais agilidade e mais conforto. Eu imagino que, para o transporte de passageiros, o transporte aéreo é a solução para o Brasil, um país tão grande.

Com relação à segurança de vôo, vejo que há uma melhora a cada ano, ao contrário do que costuma afirmar a imprensa. Temos que saber olhar o que dizem com certo ceticismo. O número de vôos por ano cresce exponencialmente, e é natural que haja mais acidentes. Mas, o que vemos é que o número de acidentes não cresce na mesma proporção. Então, há, sim, uma melhora real e considerável a cada ano na segurança de vôo.

O barateamento das passagens não influem na segurança, porque o barateamento está relacionado ao serviço de bordo e não à manutenção ou formação da tripulação. A Ryan Air, famosa pelas suas passagens de cinco euros, nunca passou por sequer um acidente, e tiveram pouquíssimos incidentes. Aqui no Brasil, a copanhia com mais acidentes e incidentes é a TAM, justamente a companhia mais cara. Logo, não há como estabelecer uma relação entre uma coisa e outra.

Sobre a infra-estrutura aeroportuária

No Brasil, a infra-estrutura aeroportuária é lamentável. Tomemos dois exemplos. São Paulo, por um lado, uma das maiores cidades do mundo, conta com apenas 3 aeroportos para vôos comerciais: Guarulhos, Congonhas e Viracopos. Congonhas é pequeno e não suporta metade dos vôos em que lá se realizam, Guarulhos é internacional e conta com poucos terminais além de se situar numa região de forte neblina, prejudicando a pontualidade dos vôos. Viracopos é excelente, para cargas. São mais de 10 anos dos terminais dedicados a carga. O aeroporto não possui estrutura suficiente para suportar a demanda necesária de passageiros.

Em comparação se pegamos uma cidade como Nova York, ou Londres, são 3 aeroportos de grande porte, e são cidades menores que São Paulo. Em NY, posso citar La Guardia, Newark, John Kennedy, por exemplo.

TAPIRUS: A aviação civil é tida como um dos meios de transportes mais seguros – e agora, no Brasil, mais baratos . Que legado voce, que é uma jovem piloto espera deixar para os que virão depois?

OVNI:  Não sou idealista a ponto de achar que caiba a mim um legado que não seja o bom cumprimento do meu trabalho, com responsabilidade e proporcionando ao máximo a segurança do transporte. Sou mais pé no chão mesmo.

TAPIRUS:  É muito saudável saber que uma piloto tem os pés no chão…melhor dizendo:  é tranquilizador: Santos Dumont já dizia que o problema de voar não era estar no ar – enquanto se está, melhor – e sim a hora de descer…o chão é o maior inimigo de um aviador…

OVNI:  Eu desejo realizar meu sonho de pilotar em linha cargueira. Embora ganhe-se menos do que em transporte de passageiros, é algo que sempre me atraiu mais e acho que são esses ideais que temos que perseguir.Eu não sou piloto de linha aérea ainda, então não tenho ‘escalas’ propriamente ditas.

TAPIRUS:  OVNI, você tem alguma dica para as moças que pretendem seguir a mesma carreira que você?

OVNI:  Para as gurias, eu acho que é importante investir em seus sonhos. Enquanto mulher, pode ser, sim, mais difícil ter esse tipo de carreira. Não pela possibilidade de enfrentar dificuldades dentro da própria carreira, mas pelo mundo que gira em torno da gente não estar acostumado com “mulheres no volante”. Mas, a pior coisa que pode acontecer para o ser humano é jogar a toalha por achar que algo é difícil. Se a aviação é algo com que sonhas, deves perseguir isso. Sempre há mil maneiras de contornar as dificuldades e sempre há pessoas mais experientes para ajudar nisso. Cabe saber procurar as pessoas certas, ter amizades de verdade, que tudo se torna mais fácil.

(*): A Piloto entrevistada não forneceu imagens de suas atividades, por conta disso  Tapirus achou por bem não identificá-la pelo nome.

Não há nenhuma intenção na designação OVNI.

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