Riocentro – As últimas covardias da ditadura no Brasil


O chamado atentado do Riocentro foi um frustrado ataque à bomba que seria perpetrado no Pavilhão Riocentro na noite de 30 de abril de 1981, por volta das 21 horas, quando ali se realizava um show comemorativo do Dia do Trabalhador.

As bombas seriam plantadas pelo sargento Guilherme Pereira do Rosário e pelo então capitão Wilson Dias Machado, hoje coronel, atuando como educador no Colégio Militar de Brasília. Por volta das 21h00min, com o evento já em andamento, uma das bombas explodiu dentro do carro onde estavam os dois militares, no estacionamento do Riocentro. O artefato, que seria instalado no edifício, explodiu antes da hora, matando o sargento e ferindo gravemente o capitão Machado.

Na ocasião o governo culpou radicais da esquerda pelo atentado. Essa hipótese já não tinha sustentação na época e atualmente já se comprovou, inclusive por confissão, que o atentado no Riocentro foi uma tentativa de setores mais radicais do governo (principalmente do CIE e o SNI) de convencer os setores mais moderados do governo de que era necessária uma nova onda de repressão de modo a paralisar a lenta abertura política que estava em andamento.

Uma segunda explosão ocorreu a alguns quilômetros de distância, na miniestação elétrica responsável pelo fornecimento de energia do Riocentro. A bomba foi jogada por cima do muro da miniestação, mas explodiu em seu pátio e a eletricidade do pavilhão não chegou a ser interrompida.

Esse episódio é um dos que marcam a decadência do regime militar no Brasil, que daria lugar dali a quatro anos ao restabelecimento da democracia.

Várias medidas estranhas tomadas no dia em que se realizaria o show indicam que o atentado envolveu a participação estratégica de muitas pessoas, militares e civis, e que já vinha sendo planejado detalhadamente pelo menos um mês antes.

A poucas horas do início do evento, a segurança do pavilhão era parca em relação ao habitual. O tenente César Wachulec, chefe da segurança do Riocentro, recebeu naquele dia uma ordem para controlar exclusivamente o movimento das bilheterias. A coordenação geral dos seguranças foi transferida para um outro funcionário, um mecânico sem qualquer experiência na área. Um mês antes disso, o antecessor do tenente Wachulec fora demitido sem justificativas. Seu nome era Dickson Grael (pai de Lars e Torben Grael), coronel do Exército e bastante experiente nesse tipo de serviço.

A Polícia Militar costumava destacar homens para patrulhar eventos no Riocentro, assim como em qualquer outra grande aglomeração de pessoas. Mas no dia do atentado o policiamento fora suspenso pouco antes do show. A justificativa foi a de que, por ser um evento privado, a responsabilidade pela segurança era exclusiva dos organizadores.

O carro que carregava a bomba – um Puma cinza-metálico – fora visto na tarde daquele mesmo dia no restaurante Cabana da Serra, que ficava num ponto isolado da estrada Grajaú-Jacarepaguá, parado junto a outros seis carros. Desses carros desceram cerca de quinze homens, que usaram uma mesa do restaurante para examinar um grande mapa. Depois de perceber que vários dos homens carregavam armas na cintura, um dos funcionários resolveu ligar para a polícia. Uma viatura atendeu o chamado mas, dada a superioridade numérica dos homens, limitou-se a anotar as placas enquanto pedia reforços. Mas os carros abandonaram o local antes que outros policiais chegassem.

No dia fatídico várias placas de trânsito num trajeto que leva ao Riocentro foram pichadas com a sigla VPR. Provavelmente foram os próprios envolvidos no atentado que as vandalizaram enquanto encaminhavam-se para o pavilhão. A VPR – Vanguarda Popular Revolucionária – foi um grupo de guerrilha de esquerda, mas já havia sido desmantelado em 1972, quando a maioria dos seus integrantes foi morta. As pichações foram uma tentativa de culpar militantes de esquerda pelas explosões.

O Puma levava dois passageiros, o capitão Wilson Luís Alves Machado e o sargento Guilherme Pereira do Rosário. Ambos integravam o DOI do I Exército, no Rio de Janeiro e o sargento Rosário era treinado em montagem de explosivos.

Quando o carro começou a sair da vaga onde estacionara no Riocentro, provavelmente já para plantar a bomba, o artefato explodiu antecipadamente. A explosão inflou o teto do carro e esbugalhou as portas. O sargento Rosário faleceu, enquanto que o capitão Machado sobreviveu. Ele se jogou para fora do carro e pediu para ser levado a um hospital.

Muitas pessoas se aglomeraram em volta do carro. Alguns dos espectadores, inclusive o tenente Wachulec, viram um homem retirar do interior do carro duas granadas do tipo cilíndrico usado pelo Exército Brasileiro.

A explosão não chamou a atenção do público que assistia o show dentro do Riocentro. Curiosamente, a segunda explosão, que aconteceu na caixa de força da estação elétrica, pôde ser ouvida dentro do pavilhão como um ruído abafado. Os artistas só eram avisados sobre o atentado à medida que deixavam o palco e de forma discreta. A platéia só foi informada perto do final do show, quando o compositor e cantor Gonzaguinha subiu ao palco e disse:

“Pessoas contra a democracia jogaram bombas lá fora para nos amedrontar.”
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