Coca e Fanta


Coca nascera Carolina, mas detestava as formalidades da família e o liberalismo alcalóide dos amigos, então aceitou a alcunha como uma espécie de desambiguação de si para si. A verdade é que ela mesma forjara o apelido; a mãe o achava terrível, os amigos, descabido; então essa palavra mágica lhe permitia transitar sem grandes sustos entre universos tão distintos, guardando distância segura. Conheceu Fanta numa sessão de cinema “cult”, daquelas frequentadas por gente esquisita, nas sextas feiras à noite. O filme era Ladrões de Bicicletas – filme em preto e branco tem um quê de enigmático, Fanta dizia, é como se a ausência de cores encerrasse algum mistério, o que seria impossível num filme colorido. Parece que a qualquer hora vai rolar um Psicose, aquela cena do chuveiro, sabe como é?

Foi numa dessas sextas que Coca ouviu chamarem alguém de Fanta. Curiosa com o nome, acompanhou com o olhar quando um tipo tatuado, cabelos avermelhados e curtos, atendeu ao chamado. Daí a descobrir terem amigos em comum foi o tempo de um instante; a amizade viria ainda mais rápida.

Fanta era Teresa, mas poucos sabiam. Seu apelido vinha do fato de que, admirada ou satisfeita, quase sempre falava: Fanta!!. Uns meses e duas garrafas de vinho depois foi que Teresa confidenciou que aprendera a palavra num conto do Chacal, a quem amava de paixão.

Fanta não estudava mais, parou quando concluiu o segundo grau, o que coincidira com as mortes de seu pai e irmão num acidente de trânsito.  A situação financeira ficou difícil, dívidas vencidas do pai, a casa hipotecada, de sorte que ela largou o cursinho sem que a mãe lhe pedisse, e a partir daí declarou-se autodidata. Fazia isso há dez anos.

Teresa jogava-se de corpo e alma às experiências sensoriais, o que incluía degustações as mais diversas, bebedeiras homéricas e amores desfeitos que com o tempo minaram sua saúde. Era Fanta quem ficava quando Teresa ia embora.

A quase ausência de cuidados e cuidadores tinham aos olhos de Coca um fascínio especial de futura enfermeira. Fanta adivinhou-lhe esse sentimento, ao qual apreciava; e não raro causava-se danos, cometia exageros ou queixava-se de sintomas para ver-se cuidada pela amiga, que se alguma vez percebeu algum embuste, guardou para si.

Apesar das dessemelhanças evidentes – quase antagonismo mesmo – Coca e Fanta encaixavam-se na vida uma da outra, completavam-se. De um lado o desejo secreto da fuga, de outro, a vontade incontida do retorno.

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