Cabanagem – O Massacre do Brigue Palhaço


AOS CABANOS E AOS REBELDES DO BRIGUE PALHAÇO

A maior rebelião popular ocorrida na história do Brasil é a Cabanagem. Os cabanos – mestiços, indíos destribalizados e negros libertos – se levantaram em 1835 contra as precárias condições de vida na Província do Pará e a prerrogativa que a Corte tinha de nomear os presidentes das provincias.

A própria denominação dada aos rebeldes revela o caráter popular da rebelião paraense. Os revolucionários , em sua imensa maioria, moravam em cabanas nas periferias de Belém, do Baixo Tocantins, de Santarém e de Óbidos. Chegaram a assumir o controle da capital paraense durante quase um ano – logo após a ação da madrugada de 7 de janeiro de 1835, quando tomaram os quartéis de Belém e mataram o presidente da província e o comandante militar do Pará.

A repressão ao levante foi de ferocidade inacreditável. As tropas do Império, comandadas pelo marechal Francisco José Andréia, perseguiram de forma implacável os rebeldes, que à entrada do exército tinham se dispersado pela floresta e pelos rios da região. A repressão deixou o absurdo número de 35 mil rebeldes mortos – mais de 30 % da população do Pará. Leiam um relato de uma testemunha do massacre:


” Rebeldes verdadeiros ou supostos eram procurados por toda a parte e perseguidos como animais ferozes ! Metidos em troncos e amarrados, sofriam suplícios bárbaros, que muitas vezes lhes ocasionavam a morte. Houve até quem considerasse como padrão de glória trazer rosários de orelhas secas de cabanos”.
(Relato de Domingos Raiol).

No mesmo ano em que explodiu a rebelião no Pará, começou no Rio Grande do Sul a Guerra dos Farrapos; revolta separatista liderada pelas elites gaúchas que criavam gado e produziam charque. Não é sobre os valentes farrapos que esse texto versa. Quero apenas transcrever um pronunciamento feito pelo Barão de Caxias, comandante das tropas que combateram os separatistas do sul, ao final do conflito nos pampas:


“Reverendo! Precedeu a esse triunfo derramamento de sangue brasileiro. Não conto como troféu desgraças de concidadãos meus, guerreiros dissidentes, mas sinto as suas desditas e choro pelas vítimas como um pai pelos seus filhos. Vá reverendo, vá! Em lugar de Te Deum, celebre uma missa de defuntos, que eu, com meu Estado Maior e a tropa que na sua igreja couber, irei amanhã ouvi-la, por alma de nossos irmão iludidos que pereceram no combate”.

Bonito, não? Enquanto os cabanos – homens do povo – foram perseguidos, torturados e mortos que nem bichos na floresta, os fazendeiros gaúchos mereceram uma honrosa missa de defuntos com a presença do Estado Maior das forças armadas do Império. Enquanto orelhas secas de cabanos eram exibidas como medalhas do triunfo, os estancieiros mereceram o choro comovido do marechal – o pranto de um pai pelos seus filhos.

Vai esse texto, modestíssimo, em homenagem aos que não tiveram missa – os cabanos trucidados e os 256 rebeldes covardemente assassinados no porão do brigue Palhaço. Que batam sempre para eles os nossos tambores caboclos.

Abraços.

postado por Luiz Antonio Simas

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Belém, 22 de Agosto de 1823 – Réquiem a João Tapuia

Quase uns trezentos homens sufocavam no porão do brigue “Palhaço” ancorado nas aforas do porto de Belém do Pará quando a gritaria começou. Berravam por água e por ar. Asfixiavam-se. Eram do 2º Regimento de Artilharia de Belém que se insurgira contra a junta governativa em agosto de 1823. Quem os prendeu e os removeu para a masmorra flutuante foi o comandante Greenfell, um daqueles ingleses oficiais de marinha a soldo de D. Pedro I, que lá estava para assegurar a integração do Grão-Pará ao Brasil recém independente.

Assustados com a barulheira dos encarcerados, meio endoidecidos pelo calor e pela sede, a tripulação da improvisada galé os acalmou a tiros e à noite espargiu sobre eles, ainda empilhados lá embaixo, uma nuvem de cal. Na contagem matinal do dia seguinte, no dia 22, só deram com 4 vivos. Dias depois restou só um, João Tapuia. Morreram 252 milicianos e praças, sufocados e asfixiados. Um pavor acometeu o Pará. O interior ferveu. Gente comum morrera como bicho.

Quanto a responsabilidade pela tragédia, como sempre ocorre, ninguém a assumiu. Para milhares de tapuias e de caboclos paraenses, genericamente chamados de “cabanos”, devido as choças que habitavam, a independência até então não dissera a que veio. Agregou-se a isso o fato dos poderosos locais, quase todos portugueses, donos do comércio grosso e de vastas terras, ainda reservavam para si o controle das instituições, e que, como ativista do partido dos “Caramurús”, almejavam reatar com Lisboa na primeira oportunidade que houvesse.

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