O Furo


Ela via a paisagem urbana passando rápido diante dos olhos, mais rápidos ainda corriam seus pensamentos. Dentro do furgão da emissora que chegara às pressas da capital, o burburinho da equipe de TV, o som das sirenes das viaturas policiais que lhes abriam caminho, os olhares assustados dos transeuntes nas calçadas, todo aquele clima de urgência chegava a lhe reter a respiração.

Nunca fizera qualquer matéria relevante naquela cidade onde quase nada acontecia; leilões de gado, feiras e merchandising de açougues e mercearias eram sua pauta de todos os dias…agora isso! Revisava mentalmente sua fala quando finalmente entrasse – ao vivo – para todo o país, quiçá o mundo; seria com certeza o ponto alto de sua já longeva carreira de jornalista, o ponto culminante de sua vida até então, e ela saboreava antecipadamente cada segundo dessa hora. E por dentro tremia de insegurança e orgulho.

Equipes jornalísticas de vários países já estavam à caminho da cidade, ela e sua equipe porém seriam os primeiros a gravar e divulgar ao mundo as imagens do fato. Um furo internacional! repetia de si para si…mal crendo que estava a poucos segundos da própria consagração. O camera-man lhe dava uns macetes sobre enquadramento e travelling; grande plano geral e plano americano; ao que ela ouvia atentamente sem esquecer de fingir um certo ar blasè dos que – não como ela – viviam esse meio como fato corriqueiro.

Lembrou das dificuldades da infância, da leve dislexia que a atrasara na escola, da faculdade de jornalismo que tanto sonhara e que nunca conseguira cursar. Aprendera tudo com sua força de vontade e na prática;  agora era ela, uma “sub-profissional”  como ouvira certa vez na redação, a quem cabia informar à humanidade; seria dela a imagem em primeiro plano que viajaria por incontáveis satélites em torno do planeta, até chegar às mansões e aos lares mais humildes, como era o dela mesma.

Se houvesse um espelho naquele furgão, ela decerto veria suas feições transmudadas.

Pelo celular informaram que um helicóptero da CNN já se deslocava celeremente ao local do acontecimento, e que se não se apressassem seriam os segundos na cena. Pé em baixo, o motorista fazia curvas improváveis pelas estradas de terra já da zona rural. Urgia chegarem rapidamente, enquanto os pneus cantarolavam cada vez mais alto uma estridente cantiga de morte…

Nesse ponto paro de escrever e me sirvo uma generosa taça de vinho Periquita, como faria o personagem Mandrake, de Rubem Fonseca:

– Devo matá-la? Penso alto enquanto acendo outro cigarro; está ficando notório que meus contos não acabam. Como Murilo Rubião tendo à ciclicidade; melhor dizendo, ao moto-contínuo em minhas curtas estórias. E daí?

Retorno ao teclado ainda na incerteza do óbito. Ela merece alcançar uma felicidade na vida, mesmo que fugaz. Ou: O que importa é o caminho, as pedras e os desvios, não propriamente chegar-se ao destino, coisa tão óbvia! Auto-perguntas retóricas, prova de uma certeza que ainda não se admite real, de uma tentativa de auto-convencimento…ou não.

Foi numa das curvas fechadas que avistaram o helicóptero. Estavam a pouco menos de dois quilômetros do destino, e o motorista gritou para trás: Segurem-se que vou meter o pé! Ato contínuo acelerou o furgão. Ela retocava a maquiagem e caiu sentada num banco; uma risca vermelha viva de baton no rosto, e uma lágrima contida de quem sempre esteve prestes a conseguir.

E.J.

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Um comentário em “O Furo

  1. “prova de uma certeza que ainda não se admite real, de uma tentativa de auto-convencimento…ou não….e uma lágrima contida de quem sempre esteve prestes a conseguir.”
    Encantou-me essas entrelinhas…

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