A Mão Cabeluda e outras visagens


Falar sobre visagem é retomar alguns dos maiores terrores da infância. Quem nunca foi ‘agraciado’ com um relato de fantasmas e ficou impressionado com isso?

Na casa de meus pais, mais exatamente debaixo da cama deles, morava uma visagem que eu apelidei de “mão cabeluda”. Não sei exatamente o que ela fazia da vida durante o dia, mas durante a noite sua única função parecia ser me atormentar.

Lá pelas 19 horas, banho tomado, depois do lanche, lá ia eu para meu suplício voluntário. Me atirava de muito londe na cama para não correr o risco de ter os tornozelos agarrados pela criatura do mal; tão logo aterrisava, me punha numa imobilidade digna das estátuas vivas que vemos no centro das cidades, e pior: a colcha da cama de meus pais era de tecido sintético, grosso, e o clima amazônico somado ao meu medo me fazia transpirar à beça, obviamente imóvel, que eu não era bobo de me mexer e chamar a atenção da besta fera sobre mim.

Assim ficava por muito tempo, sofrendo em silêncio, paradão. Rezava pra minha mãe vir fazer alguma coisa no quarto, acender a luz salvadora (a mão cabeluda não se manifestava na presença de adultos, e sob a luz perdia seus poderes), o que quase nunca acontecia.

Engana-se quem pensar que depois de tanto sofrimento e suor eu já não tivesse desenvolvido minhas estratégias de escapatória. A principal – e única, devo admitir – consistia em limpar a mente dos pensamentos de fuga; nenhum movimento antecipatório, nada que a criatura pudesse conhecer de antemão. Desde essa época eu já sabia que a Mão Cabeluda podia ler meus pensamentos quando eu estava sobre a cama. De chofre, sem pensar, dava um salto milimetricamente calculado e me punha a uma distância segura de seu braço enorme e cabeludo…

Suado ainda, ia até a geladeira repor o líquido perdido na transpiração abundante. Minha mãe perguntava o que eu estava fazendo para estar tão suado àquela hora, ao que eu respondia com a resposta-padrão: Nada, Mãe! enquanto já imaginava que minha luta solitária apenas tinha começado naquela noite. Se aproximava a hora de eu ter que ir dormir, e a Mão Cabeluda já podia ter descoberto meu refúgio noturno…

E.J.

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Um comentário em “A Mão Cabeluda e outras visagens

  1. Amei…simplesmente o máximo!
    Acredito que,na vida adulta à gente tenha saudades das “mãos cabeludas” que, nos apovaravam na infância!
    Os medos de hoje são bem reais nas nossas vidas!
    Amei saber “detalhes” da tua luta na madrugada solitária, como um heróico menino, em contato com a sua “besta-fera” em particular…rsrrsr
    Também tive as minhas “mãos cabeludas”, com pés, caras horrorosas!
    Só vim dormir em um quarto escuro, já na fase adulta. Nem pensar na época de criança!
    Passei boa parte da minha vida com muito medo, de muitas coisas.
    Hoje em dia, tenho saudades das minhas madrugadas de “terror!”
    Mas, por me lembrar a inocência perdida…
    Do medo, não tenho um pingo de saudades!
    Beijos Eudyr!

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