Rabiolas, papagaios e cangulas


Na Belém da minha infância Julho era o mês em que as rabiolas coalhavam o céu da cidade. Só rabiolas não; haviam inúmeros modelos daqueles adoráveis objetos voadores: Cangulas, Papagaios, Curicas, Pesetas, e por aí vai.

Rabiola

Cheguei a confeccionar algumas rabiolas, mas gostava mesmo era de ir a uma das várias casas onde estas eram fabricadas, em todas as cores e tamanhos. Os melhores artífices eram muito demandados pela molecada; inclusive os já pais de família que, sob o álibi de adquirir para seus filhos, davam vazão à saudade de suas próprias infâncias.

O procedimento padrão – por assim dizer – era juntar todas as moedas amealhadas como trôco nas compras do pão da tarde, comprar um ou mais carretéis de linha 24 (para rabiolas e papagaios) ou de linha 10 (para rabiolões); adquirir goma de tacacá ou colas como o afamado “aço-do-pico”; quebrar e moer lâmpadas queimadas (as melhores eram as fluorescentes, por fazerem um pó mais fino), misturar com a cola ou goma; encerar alinha manualmente, com o cerol escorrendo pelos dedos, entre dois postes de luz ou com a rabiolla já no ar, o que demandava mais destreza e uma boa dose de coragem, por ficar à mercê das outras rabiolas enquanto o cerol não secava.

Cangula

Todo moleque sabe que empinar papagaios – vamos chamar assim, para generalizar – requer um razoável nível de conhecimentos em várias áreas, desde aerodinâmica básica até a desenvoltura nos processos de moagem (de vidros) , passando pela química da manufatura do cerol, sempre nos “laboratórios” improvisados fora do alcance das vistas dos pais.

Ano passado foi realizado o primeiro campeonato de rabiola em Belém, idealizado pela Guarda Municipal da cidade. Se hoje a disputa está no rumo da institucionalização, nos meus tempos de meninice os duelos não tinham quartel, e se realizavam a qualquer hora do dia – e até de noite! rss – principalmente na hora em que o sol estava mais quente, à pino, em plena vigência do vento “geral”.

Quem correu descalço pela piçarra quente atrás de papagaios “chinados”, ou “matou” linha dos adversários cortados pode dizer que teve infância. Matar linha era considerado um delito de guerra, vingado das mais variadas formas; a mais comum era passar e frear a bicicleta sobre a linha do inimigo jogada no chão, puindo-a. Lógico que era uma operação arriscada, por se realizar normalmente em terreno hostil, quase sempre no meio da “galera da outra rua”, adversários também nas peladas dos campinhos espalhados pelos bairros.

Papagaio

Já se vão 24 anos que não desfruto desse prazer, e se hoje o cerol é politicamente incorreto, (vai explicar isso pro moleque!), as batalhas de rabiolas terão sempre lugar no cantinho mais sagrado das minhas memórias de menino…

Pequeno Dicionário dos empinadores de papagaio – Belém

AO VAI ELE, PENOSO!!: Interjeição de júbilo ao se cortar a linha do adversário;

AÇO DO PICO: cola escura vendida em tabletes;

APARAR: usar a própria linha para segurar no ar um papagaio que ven chinando;

BARRIGA: curvatura realizada manualmente no papagaio (na barriga), para dar-lhe maior estabilidade;

BODE: pedra ou peso amarrado numa linha, com o objetivo de baixar ou matar a linha de alguém. Pode ser com uma ou duas pedras;

BOLO: (de linha), onde fica armazenada a linha para empinar; a forma esférica favorece descair durante os laços;

CHINAR: é o que faz um papagaio cortado, “vai embora para a China”;

CURICA: pipa feita de material e papel improvisado, normalmente minúscula;

DAR CABEÇA: manobrar o papagaio para os lados e/ou para baixo;

DESCAIR: soltar a linha, principalmente durante o laço;

ENCERAR: (a linha): adicionar cerol;

ENTERRAR: dar cabeças no papagaio deixando-o numa rápida trajetória vertical descendente;

GASGO: área da linha próxima do papagaio;

LAÇO: momento em que as linhas adversárias se tocam no ar, existem muitas variedades, baseadas na abordagem feita por quem ataca; os mais famosos são o pendura e o laço porco;

LESO: estado de pouca força e peso em que o papagaio se encontra quando a linha é amarrada muito acima no peitoral;

LINHA BRANCA: linha não encerada;

MATAR LINHA: reter ou subtrair a linha de um papagaio chinado, que cai sobre o nosso território;

PEITORAL: fio amarrado nos extremos verticais das tala dos papagaios, onde se amarra a linha;

PENDURAR: puxar a linha para o papagaio subir rapidamente por baixo da linha adversária, tipo de laço muito utilizado por quem empina papagaios.

PENOSO: adversário que tem pena de descair a linha, causa frequente de derrotas nos laços;

REVIRAR: passar a linha sobre a do adversário até ficar quase fora do vento, e depois retornar, passando a linha também por baixo, tipo de laço mais eficiente;

SEIO: curvatura descendente na linha por causa de seu peso;

TREME: estado oposto ao leso, em que a linha é amarrada mais ao meio do peitoral, causando muita tensão na linha;

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4 comentários em “Rabiolas, papagaios e cangulas

  1. Eu estou mostrando bastante aqui para os Argentinos a nossa cultura de empinar papagaios, eles ficam fascinados com a distância que eu descaiu. Victor de Sá

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