Uma história simples, de gente


O caso que passo a narrar é tão verossímil que pode muito bem ser realidade, por isso não serão dados nomes aos personagens.

A Sra. A vinha de uma família humilde, um degrau acima da pobreza, e talvez pela proximidade de aspirações e pelos amigos comuns, conheceu, se apaixonou e finalmente casou-se com o Sr. A.

As bodas foram bem simples, poucos convidados escolhidos à dedo; a festa fora fruto de alguns anos de economia e não poucos sacrifícios de ambos; a Sra. A radiava de felicidade com seu vestido emprestado de uma prima, o Sr. A, altivo e orgulhoso, trajava um terno alugado graças à uma ação entre amigos, pois todo dote que traziam era composto quase só de trabalho, confiança e amizades verdadeiras.

O Sr. A era então motorista de táxi e a Sra. A costurava por encomenda.

Com a chegada do primeiro filho a situação econômica do casal agravou-se; o marido recusou a oferta da família de ambos para morarem de favor, de modo que mudaram-se para um pequeno cubículo, na verdade um porão de uma das antigas casas que ainda se veem no centro velho de Belém. Como a mobília era pouca, couberam com certa folga na morada nova, à qual a Sra. A se esforçava para dar ares de um pequeno castelo imaginário. Só os seus sonhos não cabiam ali.

Certo dia um cobrador de loja bateu-lhe à porta com uma conta vencida. Tão logo soube das dificuldades da família e da impossibilidade momentânea de quitação, o homem pôs-se à gritar na porta de entrada, para quantos quisessem ouvir, que iria mandar buscar os objetos não pagos, à força, se fosse preciso, e que “esses ratos de porão” estavam enganados se pensavam que iriam roubar a loja.

Muitos anos mais tarde, a Sra. A ainda chorava ao lembrar desse dia. Fora a primeira de suas muitas humilhações.

O tempo passou e o Sr. A – que era inteligente e determinado – conseguira emprego como vendedor de sapatos, depois elevou-se a gerente da loja em que trabalhava, depois montou sociedade numa pequena firma de representação no mesmo ramo, e por fim, comprou a parte do sócio e tornou-se o único proprietário da agora pequena empresa, com quase dez caixeiros viajantes a seu serviço.

A situação mudara radicalmente ao longo dos anos para a família, agora com quatro integrantes após o nascimento de uma menina. A Sra. A andava agora melhor composta: Vestida de bons panos, mas não caros; comida à farta e educação razoável para os dois filhos. Entretanto a Sra. A mantinha dentro de si a humildade que trouxera da casa dos pais, e mesmo com a elevação de seu status financeiro, mantinha fielmente as amizades antigas, testadas pelos reveses da vida.

O Sr. A no entanto andava cada vez mais em outras rodas, dizia que era por imposição do ofício, sempre àvido a buscar novos contatos e nichos comerciais. Assim é que seus hábitos mudavam e ele já costumeiramente chegava madrugada adentro no lar, quase sempre cheirando à bebida e a perfumes de mulher. A Sra. A voltara a chorar escondido, tal como fazia depois daquela visita no porão; não comentava nada por diversos motivos, mas sua resignação foi traída quando encontrou os bilhetes no bolso do marido.

Após meses de discussões cada vez mais frequentes, o Sr. A já quase não dormia em casa, decidiram separar-se. A partilha fora feita à moda antiga: Filhos e casa com a esposa, o restante – incluindo uma pequena pensão mensal – ficara a cargo do marido.

Poucos anos se passaram e a conduta do Sr.A com a famíla ia de mau a pior. Muitas vezes equecera de repassar o dinheiro da pensão, o que obrigou a Sra. A à retornar à costura. Certa vez o atraso fora muito, e diante das prestações escolares vencidas, munida dos bilhetes da secretaria do colégio dos filhos fora falar como ex-marido,em busca ao menos de uma promessa. Finalmente encontrou-o num botequim mal afamado, nos braços de uma mulher. Voltou para casa sobre os próprios passos, sem ter tido coragem de aproximar-se.

Um dia o Sr.A apareceu morto na cama de uma prostituta.

A casa que lhe ficara como espólio do casamento – que não chegou a dissolver-se oficialmente – a Sra. A perdeu-a para um banco; assim como a mobília e outros objetos, alienados para saldar dívidas. A Sra. A foi então abrigar-se numa casa de chão batido, tãolonge de Belém como nunca estivera antes.

Numa visita que tive a oportunidade de presenciar, a Sra. A narrou-me esses fatos. Sempre humilde e vestida agora ainda mais simplesmente, porém com decoro e asseio, falou de seus planos para quando o filho mais velho terminasse a faculdade. Ele prometeu resgatá-la e à irmã, assim que tivesse condições para isso.

 

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