Um dedo apontando pro céu: O homem de cabelos cinzas


“Isabel sempre foi estranha: colecionava receitas culinárias, recebia cartas com receitas de Hong Kong, era a favor dos Estados Unidos na América Latina e contra os Estados Unidos no Vietnã, chamava Fidel Castro de cortador de cana do Caribe e bastava falar em Che Guevara para ficar com um cisco nos olhos e querer morrer na selva da Bolívia usando o nome de guerra de Tânia, com um tiro no coração..”

(Roberto D: ” Isabel numa sexta feira”; inspirado em Ângela Diniz)

 

A curiosidade matou o gato, diz uma antiga sabedoria popular;  Este conto do Roberto D. ilustra muito bem a veracidade daquelas palavras. Antes disso lembrei de uma passagem do excelente filme “O Fabuloso destino de Amelie Poulin”. Nela encontrei a frase exata, a que poderia definir esta postagem: “Quando um dedo aponta para o céu, o idiota fica olhando o dedo…”. Perfeito!

O conto trata de um homem misterioso que é seguido por um número crescente de agentes e outros personagens, todos vivamente interessados em descobrir o que  o Homem de cabelos cinzas levava consigo…Acompanhem os trechos:

Às primeiras horas da manhã de uma 2ª feira um homem de cabelos cinza começou a ser seguido no aeroporto Santos Dumont. Trajava um elegante terno Cardin e acariciava, por baixo do paletó, um misterioso objeto guardado exatamente em cima do coração. Um dos agentes que po espionavam, o gordo, careca, com cara de agente arrependido da ex-PIDE, conseguiu o eletrocardiograma do homem de cabelos cinza.

Logo que chegou ao aeroporto o homem de cabelos cinzas tirou o misterioso objeto e o examinou. Seus olhos brilhavam intensamente. O careca que o espionava e o cabeludo que espionava o careca acreditaram ter visto um estojo de carregar pedras preciosas igual ao que o Xá do Irã deu à Farah Diba. O careca teve a certeza (mais tarde abalada) de que a água-marinha Marta Rocha estava em poder do homem de cabelos cinzas. E esfregou as gordas mãos.

Pouco depois, o homem de cabelos cinzas olhou o misterioso objeto, fingindo que lia a manchete do jornal “O Globo” e os 17 homens que o espionavam e que se espionavam nada conseguiram descobrir. Apenas viram sua expressão de felicidade. E o acharam mais suspeito.

às 7h e 45m já havia 32 agentes (sendo 18 homens, 6 mulheres e 8 travestis) seguindo os passos do homem de cabelos cinzas.

Entrementes, o homem de cabelos cinzas consultou seu relógio Omega de pulso. Eram 7h e 51m e ele se sentou numa poltrona no hall do aeroporto Santos Dumont, abrindo a revista “Time” na página 59, na seção “Books”. Os 42 espiões, agora acrescidos de mais 3 travestis e 2 agentes da Interpol, que passavam férias-prêmio no Rio de janeiro, descobriram que o homem de cabelos cinzas usava meia LUPO VERDE DE cR$ 6,00, sapato Samelo nº 39 de Cr$ 180,00, cueca Champion com fio da Escócia, cor beje, de Cr$ 32,00, gravata Cardin vervelha, presente de um banqueiro, a quem não conhecia, que estava lendo o artigo “Hesitation Waltz”, da Time, sobre Günter Grass, alemão, nascido em Danbtzig, em 1927, ex-pintor, bigodudo, escritor (e, por isso mesmo, suspeito)…Só não descobriram duas coisas:

– A causa da revoltante felicidade que relampeava nois olhos do homem de cabelos cinzas.

– Qual era o misterioso objeto que ele acarciciava em cima do coração.

Quando, graças à ação de 33 Ave-marias, 49 Padre-nossos, 68 Salve-rainhas, 21 Novenas Poderosas ao Menino Jesus de Praga, e 71 Creio em Deus Padre, rezados pelos espiões, e ainda com a ajuda de duas poderosas turbo-hélices, o Samurai levantou vôo, sem explodir nem cair, e começou a voar por um cé calmo de andorinhas, os 58 agentes admitiam que o misterioso objeto acariciado pelo homem de cabelos cinzas podia ser:

– A água-marinha Marta Rocha, avaliada em algum milhões de dólares: 46 suspeitas.

– Uma comprometedora carta de amor de Sarah Diba ao líder guerrilheiro palestino Yasser Arafat: 17 suspeitas.

– O coração de Gina Lollobigida, transplantado pelo dr. Christian Barnard: 4 suspeitas.

– O vírus da gripe Vietcong: 9 suspeitas.

– Uma carta de amor de Mao Tsé-tung para Henry Kissinger: 3 suspeitas.

– Um comprimido de LSD: 54 suspeitas.

– O que será que ele olha tanto? – Pergunta-se a aeromoça, fanática com James Bond – Porque ele, mesmo de costas, parece tão feliz?

(Nesta parte do conto, ocorre uma turbulência e o avião Samurai é chacoalhado pra todos os lados; os espiões entram em desespero, só quem se mantém calmo é o homem de cabelos cinzas)

Quando, enfim, graças a suas duas poderosas turbo-hélices e a 839 Ave-marias, 516 Padre-nossos, 401 Salve-rainhas, 191 Creio em Deus Padre, 83 Novenas Poderosas ao menino Jesus de Praga, o Samurai pousou naquele chão que o travesti espião Marilyn Monroe jurou beijar, a aeromoça andou com suas magras pernas de aeromoça, saltando os corpos caídos no chão molhado do Samurai, e parou ao lado do homem de cabelos cinzas. Então ela viu o que nenhum dos 58 agentes tinham conseguido ver: viu o homem de cabelos cinzas abrir uma caixa de fósforos Granada e ficar olhando um fio louro de cabelo de mulher.

Roberto Drummond

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