Os muitos trabalhos de Zércules


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30 meses após a primeira publicação, é com muita satisfação que o Blog TAPIRUS republica esse conto.

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O Primeiro trabalho de Zércules foi logo o do próprio parto, que pode bem nem contar, por não ter sido todo dele; mas em que ajudou, ajudou, e muito. Sabe lá o que é nascer de mãe menina, num sertão qualquer do Brasil?

Nhá parteira depois lhe disse que ele já nasceu com cabelos e dentes. Dos cabelos soube logo a serventia: piolhos. Dos dentes só descobriu após quatro anos de idade.

Com três quilos de peso, cabelos e dentadura, Zércules era grandinho, e toda gente admirava. Não demorou pro menino quase morrer de quebranto; veio preto benzedeiro, teve reza, teve canto. O menino resistiu, como não era de costume. “Milagre de Deus”, diziam as antigas. E o menino sessorria.

Aos três anos já varria o terreiro seco, quando pegou barriga dágua; dizque a dinda dessa feita lhe rezava ao pé do ouvido: “Se é pra viver como bicho, que fique de vez menino”.

Pra variar, Zércules ficou meio bom; porque ali ninguém era de todo são.

Rapadura com farinha é que faz Homem. Dizia a tia, ao ver o menino taludo. De fato dos zero aos quinze, com exceção das folhas de Palma e uma carne de boi magro nos arroubos do Coronel, esperança era quase todo seu alimento.

A mãe morreu de febre quando lhe aparecia o buço. Tomou de conta dos irmãos trabalhando na lavoura de cana do Coronel. Todos faziam isso. Desde sempre. Quase de sol à sol carpia as canas e a vida. Vivia ainda só de esperança.

Conheceu Lindalva – o nome lhe cabia bem: pele clara, cabelos idem, olhos bem abertos para a vida – perto de completar tempo. Faria dezessete anos e já se tornara Homem numa vez que fora à Vila. Lindalva ainda não era mulher. Mas ele a via como mãe, e mulher. E ela também se via assim.

Não deu tempo de casar, e não haveria mesmo o casório. A Igreja era cara, e a pressa era muita.

Na casa nova de adobe, dizia ao filho o pai recente: “Esse vai ser mais que eu, esse moleque vai ser gente!”
Nessas horas de amém, Lindalva erguia uma prece e baixava os grandes olhos De gente…

(E.J.)

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