O Natal dos Paraenses


Belém se prepara para viver mais um Círio de Nazaré

Mais 2 milhões de pessoas devem participar do Círio de Nazaré.
Imagem percorrerá mais de 130 km em quase 40 horas de procissão.

Thais Rezende Do G1 PA

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Círio de Nazaré mobiliza a cidade de Belém em outubro. (Foto: Paulo Akira/ O Liberal)Círio de Nazaré mobiliza a cidade de Belém em outubro. (Foto: Paulo Akira/ O Liberal)

Vai começar a festa da fé do povo paraense. A 220ª edição do Círio de Nazaré terá a jornada mais longa da história, a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré vai percorrer mais de 130 km, em quase 40 horas de procissão. Mais de 2 milhões de pessoas são esperadas nas ruas da cidade. Fé, emoção, mobilização, orações e homenagens marcam o segundo domingo de outubro em Belém.

A devoção pela virgem de Nazaré começou com o achado pelo caboclo Plácido da pequena imagem da virgem de Nazaré no igarapé Murutucu, onde foi construída a Basílica Santuário, em Belém. Com milagres atribuídos à santa, começou a ser realizada a procissão do Círio. Décadas passaram e a festa ganhou tradição e proporções gigantescas, que traduzem a devoção de um povo pela padroeira.

Procissão reúne 2 milhões de pessoas nas ruas de Belém. (Foto: Fernando Araújo/ O Liberal)Procissão reúne 2 milhões de pessoas nas ruas de
Belém. (Foto: Fernando Araújo/ O Liberal)

“É uma festa que não dá para ser explicada, só vivendo para conhecer”, afirma Kleber Vieira, coordenador da Festa de Nazaré. “O Círio de Belém é como se fosse a festa pascal do povo paraense, sem tirar o valor da páscoa, que tem o seu tempo litúrgico marcado. É um fenômeno extraordinário, milagroso”, descreve o padre barnabita Giovani Incampo.

“O Círio é a maior festa religiosa do planeta. Em nenhum lugar do mundo 2 milhões de pessoas se reúnem em um mesmo dia”, explica o coordenador da Festa. “Fátima (em Portugal) e Aparecida são maiores se somar o número de pessoas que visitam o ano inteiro. Mas de seis da manhã ao meio dia, com 2 milhões de pessoas, só em Belém”, afirma o coordenador.

Cada um faz sua homenagem
Nas semanas que antecedem o Círio, milhares de pessoas chegam de outros municípios, outros estados e até de outros países a Belém. Alguns já vêm homenageando a santa no caminho, fazendo o trajeto até a capital andando e rezando, para agradecer ou pedir uma graça.

A cidade entra no clima, o cheiro da maniçoba a cada esquina, a decoração dos prédios, o hino “vós sois o Lírio Mimoso” tocando nas rádios e o funcionamento do arraial anunciam a chegada de mais um Círio. Para a realização da festa, órgãos da segurança nacional, local, de trânsito e equipes de primeiros socorros trabalham integrados para garantir a tranquilidade durante as procissões.

Traslado para Ananindeua é a mais longa procissão da festa. (Foto: Igor Mota/ Amazônia Jornal)Traslado para Ananindeua é a mais longa procissão
da festa. (Foto: Igor Mota/ Amazônia Jornal)

São 11 procissões que fazem parte da festa, cinco delas acontecem antes da grande procissão. Na sexta-feira que antecede o Círio acontece a mais longa, o Traslado para Ananindeua, são 12 horas de romaria onde a imagem peregrina percorre a região metropolitana de Belém em carro aberto, escoltado pela Polícia Rodoviária Federal.

“São 55km. Estamos contando com todos os órgãos de trânsito e também os órgãos de segurança, bem como utilizar a pista do BRT. Vamos colocar as bicicletas nesta pista, para tentar minimizar os efeitos da pista diminuída da Almirante Barroso”, explica o Diretor de Procissões da Festa de Nazaré, Augusto Nobre.

Várias homenagens marcam o percurso, as pessoas aguardam a passagem da imagem como se fosse a própria Nossa Senhora que estivesse ali e fosse derramar benções. A sirene da PRF e os fogos anunciam que ela está chegando e, por onde passa, recebe aplausos e o carinho emocionado dos fiéis.

Chegada ao seu destino, na Igreja Matriz de Ananindeua, a imagem segue para mais uma romaria na manhã do dia seguinte: a Romaria Rodoviária, com destino a Icoaraci. No porto do distrito a santa embarca em um navio da Marinha para receber homenagens nas águas da Baía do Guajará. Várias embarcações, decoradas especialmente para a Romaria Fluvial, seguem a imagem peregrina até a Estação das Docas, em uma das mais belas romarias do Círio.

Milhares de embarcações e ribeirinhos participam da homenagem. (Foto: Shirley Penaforte/ O Liberal)Milhares de embarcações e ribeirinhos participam da homenagem. (Foto: Shirley Penaforte/ O Liberal)

Na Estação das Docas, motociclistas aguardam a chegada da padroeira para prestar sua homenagem. A Motoromaria segue pelas ruas da capital até a Basílica Santuário. No templo acontecerá um momento raro, a descida da imagem original de Nossa Senhora do Glória, de onde fica guardada durante todo o ano. A imagem, que só desce duas vezes ao ano, no Círio e no aniversário da Basílica, fica mais perto dos fiéis nesta época do ano.

No início da tarde de sábado, as pessoas que vão acompanhar a Trasladação começam a chegar na avenida Nazaré. Os promesseiros da corda vão se posicionando para o início da procissão. Velas, ventarolas e água mineral são distribuídos para a população por empresas e pessoas que pagam alguma promessa.

Trasladação ilumina a capital paraense. (Foto: Elivaldo Pamplona/ O Liberal)Fogos da Trasladação iluminam a capital paraense. (Foto: Elivaldo Pamplona/ O Liberal)

Após a missa, a imagem peregrina sai em procissão do Colégio Gentil Bittencout, no bairro de Nazaré, em direção à Igreja da Sé, no bairro da Cidade Velha. Fiéis iluminam a cidade com velas durante todo o trajeto. No dia seguinte, a imagem faz o caminho inverso, sai da Igreja da Sé em direção a Basílica Santuário. Várias homenagens marcam o percurso.

A grande procissão
Domingo, 5h, o sol ainda nem apareceu e uma multidão já aguarda o início da procissão em frente a igreja da Sé. Muitos chegaram da Trasladação e passaram a madrugada ali mesmo, para ver a saída da romaria ou garantir um lugar na corda.

Casas, barcos e objetos de cera são levados na procissão como uma forma de agradecer por graças alcançadas.  (Foto: Paula Sampaio/ O Liberal)Casas, barcos e objetos de cera são levados na
procissão como uma forma de agradecer por graças
alcançadas. (Foto: Paula Sampaio/ O Liberal)

Antes do início da procissão, o arcebispo metropolitano de Belém preside uma missa, com a participação do clero local e padres de outros estados, convidados para o Círio. Após a missa, uma Ave-Maria é rezada pelas milhares de vozes presentes e a imagem peregrina, vestida com um manto confeccionado especialmente para a ocasião, é colocada pelo coordenador da Festa de Nazaré na Berlinda, repleta de flores.

A romaria começa após um momento marcante, o atrelamento da corda à berlinda, procedimento feito pela Guarda de Nazaré. Além do grupo voluntário católico, as Forças Armadas também dão apoio durante a procissão.

De acordo com o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos do Pará (Dieese-PA), a cada ano, um número maior de romeiros é atraído para participar do Círio. Cerca de 76 mil turistas devem participar do Círio 2012, segundo o Dieese.

Promesseiros puxam a berlinda na corda (Foto: Ary Souza/ O Liberal)Promesseiros puxam a berlinda na corda.
(Foto: Ary Souza/ O Liberal)

O estudante Rafael Malato acompanha a procissão na corda para pagar uma promessa. “No Círio de 2007 coloquei uma fitinha e fiz a promessa: se eu passasse no vestibular, ia acompanhar na corda sempre que eu pudesse. E ela me ajudou! Só não fui no ano passado, mas neste ano vou”, conta Rafael, estudante de História da Universidade Federal do Pará.

“Mesmo que a pessoa esteja com um problema, ela está lá para pensar em uma solução. E todos aqueles pensamentos bons se unem, é uma positividade muito grande que envolve as pessoas”, afirma Malato sobre a procissão.

Na romaria, os carros dos milagres vão levando objetos de cera, símbolos da devoção do povo paraense à Virgem de Nazaré. Os carros participam do Círio desde 1182, e são conduzidos por alunos das escolas de Belém. Além de objetos de cera, há carros específicos que levam crianças vestidas de anjos. A procissão percorre as principais ruas da cidade. Fogos, chuva de papel picado, coral e artistas famosos cantam os hinos para a rainha da Amazônia.

“Durante anos acompanho a procissão com minha irmã. Nunca fui pagando promessas, apenas prestando homenagem, rezando cantando. Olho a fé das pessoas e me comovo. Um ano acompanhei da arquibancada e de lá dá pra ver bem o esforço da corda. A gente vê aquelas pessoas cansadas e de repente ganham força e cantam ‘Nossa Senhora, pode esperar, que atua corda vai chegar!’”, afirma a professora Dora Cunha. “Diversos momentos são emocionantes, mas a chegada da imagem no CAN é a mais”, conta ainda a professora.

Há promesseiros que acompanham a procissão de joelhos. (Foto: Camila Lima/ O Liberal)Há promesseiros que acompanham a procissão de joelhos. (Foto: Camila Lima/ O Liberal)

Depois de quase 5 horas de procissão, a Berlinda chega ao Complexo Arquitetônico de Nazaré (CAN). Na Praça Santuário, milhares de pessoas aguardam a chegada da imagem. Retirada da berlinda, a imagem é conduzida pelo arcebispo em um tapete vermelho até o altar, onde é celebrada uma missa.

A sensação de dever cumprido toma conta dos devotos, que voltam para casa para o almoço do Círio. Pedaços da corda são disputados pelos fiéis, que guardam o objeto como símbolo de proteção. Alguns guardam apenas a lembrança de um dia inesquecível e já começam a contar os dias para a chegada do próximo Círio de Nazaré.

Em 2012, a Diretoria da Festa de Nazaré estima que a procissão chegue ao seu destino por volta das 12h, no máximo 12h30. “Contamos com a ajuda dos promesseiros da corda, com essa campanha pelo não corte antecipado da corda”, afirma o diretor de procissões.

Sensação de dever cumprido toma conta dos romeiros com a chegada da Berlinda a Praça Santuário.  (Foto: Camila Lima/ O Liberal)Sensação de dever cumprido toma conta dos romeiros com a chegada da Berlinda à Praça Santuário. (Foto: Camila Lima/ O Liberal
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