A Diáspora Cabana


“A revolução social dos cabanos que explodiu em Belém do Pará, em 1835, deixou mais de 30 mil mortos e uma população local que só voltou a crescer significativamente em 1860. Este movimento matou mestiços, índios e africanos pobres ou escravos, mas também dizimou boa parte da elite da Amazônia.

O principal alvo dos cabanos era os brancos, especialmente os portugueses mais abastados. A grandiosidade desta revolução extrapola o número e a diversidade das pessoas envolvidas. Ela também abarcou um território muito amplo. Nascida em Belém do Pará, a revolução cabana avançou pelos rios amazônicos e pelo mar Atlântico, atingindo os quatro cantos de uma ampla região. Chegou até as fronteiras do Brasil central e ainda se aproximou do litoral norte e nordeste. Gerou distúrbios internacionais na América caribenha, intensificando um importante tráfico de idéias e de pessoas.

Contrastando com este cenário amplo, a Cabanagem normalmente foi, e ainda é, analisada como mais um movimento regional, típico do período regencial do Império do Brasil. No entanto, os cabanos e suas lideranças vislumbravam outras perspectivas políticas e sociais. Eles se autodenominavam “patriotas”, mas ser patriota não era necessariamente sinônimo de ser brasileiro. Cabanos era o termo utilizado como alcunha dos homens que viviam em casas simples, cobertas de palha. O mesmo nome cabano também significa um tipo de chapéu de palha comum entre o povo mais humilde na Amazônia.

 Este sentimento fazia surgir no interior da Amazônia uma identidade comum entre povos de etnias e culturas diferentes. Indígenas, negros de origem africana e mestiços perceberam lutas e problemas em comum. Esta identidade se assentava no ódio ao mandonismo branco e português e na luta por direitos e liberdades.”

 

Texto: Introdução do artigo “Cabanagem, cidadania e identidade revolucionária: o problema do patriotismo na Amazônia entre 1835 e 1840” – Profa.Dra. Magda Ricci, 2006

Fotos: Blog O passado é um país estrangeiro

 

Rumo ao Oeste

A Cabanagem, rebelião popular que ocorreu na província do Pará de 1835 a 1840, foi violentamente reprimida pelas tropas legalistas. O enfrentamento causou um grande número de baixas – aproximadamente 30 mil pessoas – e, na esperança de escapar das regiões de conflito, parte da população local traçou rotas de migração. Os escravos transformados em soldados para lutar contra os cabanos aproveitaram a oportunidade de fugir e, deste modo, também se tornaram desertores.

Inicialmente, quem deixava seu lugar de origem se estabelecia ao longo do curso dos rios ou seguia para a província de Mato Grosso. Dessa forma, os desdobramentos do conflito possibilitavam a ligação entre regiões imensas, pois, apesar de serem limítrofes e manterem relações comerciais desde o período colonial, eram geograficamente distantes.

O presidente da província, Antônio Pedro de Alencastro (1834-1836 e 1859-1862), demonstrou sua preocupação com a chegada dos “anarquistas do norte” ao reunir uma tropa com poder de polícia, que chamou de “Cívicos da Reserva”. Uma de suas funções era zelar pela tranquilidade em Cuiabá e repelir a entrada de indivíduos vindos do Pará. Mesmo assim, esses escravos traçaram rotas de fuga que se estenderam por limites ainda mais amplos, ultrapassando as fronteiras do Império.

Nas fugas para o exterior, um dos destinos escolhidos pelos cativos foi a República da Bolívia, que conquistou sua independência em 1825, depois da batalha de Ayacucho. Logo após o advento da República, houve a proibição do comércio internacional de escravos e a abolição do regime de trabalho servil. A adoção do princípio de “território livre”, segundo o qual os homens se desprendiam dos grilhões da escravidão no momento em que pisavam no solo de um país que não adotasse essa prática, serviu de estímulo e deu esperança aos escravos fugidos.

 

Texto: Cristiane Kozlowsky, Newman di Carlo Caldeira e Rafael de Almeida Daltro Bosisio

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Cabanos


Ainda que os teus pés pisem mil anos neste lugar, não apagarão o sangue dos que aqui caíram, e não se extinguirá a hora em que caístes.

Ainda que mil vozes cruzem este silêncio.

(Neruda)

 

Fotos: II Encontro da Cabanagem – Cuipiranga-Santarém-Pará, 2012

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Cuipiranga: O Rosário Cabano dos Mundurucús


Os Mundurucus foram fundamentais no cerco de Cuipiranga . Sem eles, não teria dado certo. Motivo: não havia “legais” suficientes para a luta. Os “homens da cidade e das guardas” haviam sido mortos ou passado para o lado dos cabanos. Outros fugiram e não voltaram. Para compor uma força de guerra contra os cabanos o jeito foi recorrer a um inimigo natural: os índios Mundurucu.

Sim, os mundurucu formavam, em sua origem, uma tropa de índios de corso, sempre em luta contra outras tribos. Os cabanos, em sua maioria, eram descendentes das tribos inimigas dos mundurucus (maués, arapiuns, comarus, tubinambaranas etc…). Para completar, o Padre Antonio Sanches de Brito organizou os mundurucus da missão de Juruti para a luta. Toda a nação foi mobilizada pelos tuxauás, que estavam sobre o comando do padre.

Como os mundurucus tinham o costume de “cortar as cabeças dos vencidos” o saldo foi o que hoje chamamos de “rosários cabanos”. Cabeças e mais cabeças de derrotados foram enviadas à capital. Outras fizeram parte do ornamento preferido dos mundurucus, um verdadeiro troféu de guerra, o PARINÁ, que nada mais é do que a cabeça mumificada dos inimigos derrotados na guerra.

Inclua-se, portanto, na história que não foram somente os “legalistas” que “ganharam” (?) a cabanagem. Os Mundurucus também. Graças a influência de um padre obidense que se intilulava em suas cartas contra os cabanos como “Juiz de PAZ e acérrimo INIMIGO dos Ladrões”.

Fonte: Blog do Jesu
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Cabanagem: A Tomada do trem de Guerra


“A herança cabana mais evidente e rica está na lucidez com que o povo paraense percebe continuidades seculares entre seu mundo e o dos cabanos de 1835.”

 

"A tomada do trem de guerra", de Alfredo Norfini

“A tomada do trem de guerra”, de Alfredo Norfini

A Batalha dos Mercedários

“O local foi importante porque ao lado existia o Trem de Guerra, que era o local onde se guardavam os armamentos e munições. Durante a segunda tomada de Belém em agosto de 1835 os cabanos tinham o Trem como um alvo estratégico. Numericamente os revolucionários eram maioria, mas suas armas e munições eram escassas. O Trem de Guerra era o local onde a tomada da cidade se decidiria. A luta em frente à Igreja dos Mercedários foi sangrenta, pois além de demorar horas para os cabanos derrubarem o portão do Trem, lá dentro foi armada uma emboscada: os soldados anti-cabanos estavam postos no andar superior com todas as armas e munições e, quando finalmente os cabanos invadiram a parte inferior do prédio derrubando o forte portão de entrada, lá do alto os anti-cabanos atiram e mataram tantos cabanos quantos puderam até que os corpos dos mortos fizeram volume suficiente para os cabanos ainda vivos escalassem a altura do segundo piso. Conclusão: foi uma cena dantesca. Além disso, foi neste processo que os anti-cabanos mataram o maior líder cabano. No contexto da tomada do Trem caiu morto Vinagre e assumiu o poder Eduardo Angelim. Certamente foi um momento marcante para os cabanos.”

(Magda Ricci-Historiadora, em entrevista à Professora Edilza Pontes)

A Igreja das Mercês - em 2/01/2013

A Igreja das Mercês – em 2/01/2013

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Batista Campos está morto: Viva a Revolução Cabana!


 

João Batista Gonçalves Campos nasceu em 1782, na Vila do Acará, em Barcarena, nordeste do Pará, e morreu em dezembro de 1834. Além de cônego,  Batista Campos foi jornalista e advogado. Consagrou-se um importante ativista político da história do Pará, desde a época que antecedeu a Independência do Brasil até as lutas partidárias que culminaram com a explosão do movimento da Cabanagem (1835-1840), ocorrido durante o período da regência provisória. Foi ordenado sacerdote pela Igreja Católica em 1805.
Autor intelectual da Cabanagem e autor de ‘O Paraense’, primeiro jornal publicado em Belém. Na administração pública, foi vice-presidente do Conselho do Governo da Província do Grão Pará e fez parte da Junta Provisória do Governo, no período de 18 de agosto de 1823 a 30 de abril de 1824.

Na passagem da Adesão do Pará à independência- 1823, Batista Campos foi amarrado à boca de um canhão aceso pelo mercenário e assassino inglês John Grenffel, depois de descoberta a farsa que garantiu às elites portuguesas a manutenção do poder lusitano apesar da adesão.

Em 1834, fugido da repressão da elite portuguesa de Belém, enquanto fazia a barba, Batista Campos provocou, por descuido, um corte profundo em uma espinha no rosto por intermédio da navalha que usava. O ferimento ocasionou a morte de Batista Campos em 31 de dezembro de 1834. Seu corpo foi enterrado na Vila de Barcarena e, mais de 150 anos depois, em 1985, seus restos mortais foram retirados do local de sepultamento, colocados em uma urna, e levados em carreata pela cidade de Belém, na comemoração dos 150 anos da Cabanagem, sendo posteriormente carregados a um monumento comemorativo na capital paraense.

A morte do Cônego foi atribuída à perseguição que os nacionalistas paraenses sofriam desde o episódio do Brigue Palhaço;  foi o estopim para o levante de 7 de Janeiro daquele ano, e o início da primeira revolução popular bem sucedida das américas, e única do período regencial brasileiro a chegar efetivamente ao poder, a CABANAGEM.

Alguns historiadores atribuem as fraquezas da Cabanagem à ausência de um líder ideológico, e este era sem dúvida Batista Campos. Sua morte – à um só tempo – teria feito eclodir  e fracassar o levante popular de 7 de Janeiro. (N.E.)

 

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Cabanagem: D. Bárbara na Corveta “Defensora”


A miséria e a submissão imposta pelo Império levaram às armas a população de Belém. Um dos maiores levantes do período, a Cabanagem transformou servos em senhores.

Texto Fred Linardi / Ilustrações Carlos Caminha | 23/05/2012 19h1

Era noite de festa de Reis no Brasil Império e o povo de Belém festejava ao luar. Autoridades portuguesas e famílias poderosas brindavam na noite de gala do Teatro da Providência. Do lado de fora, estava armado o palco de uma guerra anunciada. No dia 6 de janeiro de 1835, aproveitando a distração geral pela data santa, mais de 1 000 guerrilheiros empunhando espingardas, mosquetões, foices, terçados e espadas se escondiam nas matas ao redor da cidade, cortada por igarapés. Moradores de Belém misturavam-se a combatentes vindos do interior. Chegaram à capital no começo do ano e já planejavam o ataque.

À saída do teatro, o presidente da província, Bernardo Lobo de Souza, foi para a casa da amante. Demorou a perceber o caos na cidade. Esgueirando-se pelos quintais, de casa em casa, conseguiu ficar escondido até o início do outro dia. Quando saiu à rua, foi morto à bala por um índio tapuio. Caiu em frente ao palácio do governo, tomado pelos cabanos durante a madrugada. Comerciantes, fazendeiros e intelectuais apartados das decisões na província lideraram a ofensiva dos tapuios (índios que abandonaram suas tribos), negros escravos e libertos, mamelucos, cafuzos, mulatos, mestiços e também brancos. Entre tantas origens diferentes da massa que surpreendeu os soldados aliados à Regência, uma característica comum batizou a revolta. Muito pobres e explorados na economia extrativista da região, os rebeldes moravam em cabanas simples de barro, cobertas de palha. A Cabanagem (1835-40) combateu o domínio do Império e da elite portuguesa local, acostumada aos privilégios coloniais. A população buscava melhores condições de vida e reclamava da tirania do governo do Grão-Pará, imposto pelo poder central no Rio de Janeiro. Não foi difícil para um grupo de proprietários e religiosos cooptar os mais necessitados sob a bandeira da luta pela autonomia da província. Mais próxima de Lisboa do que do Sudeste, Belém resistiu a aderir ao Brasil independente. Não aceitava as ordens vindas da nova capital do Império, o Rio. A instabilidade política se arrastava havia vários anos.

A revolta estourou depois da morte do cônego João Batista Campos. Ameaçado após sucessivas brigas públicas com Bernardo Lobo de Souza, ele fugiu da cidade no fim de 1834. Uma infecção no rosto provocada por um acidente com uma lâmina de barbear matou o religioso enquanto ele estava foragido. Para os cabanos, a culpa era do presidente.

Há quem compare a tomada do palácio do governo pelos cabanos à Queda da Bastilha, marco da Revolução Francesa na Paris de 1789. Era grande a presença de estrangeiros na região. A França costumava exilar prisioneiros contrários ao regime vigente na vizinha Guiana Francesa. No livro A Miserável Revolução das Classes Infames, o historiador Décio Freitas relata o testemunho de Jean-Jacques Berthier, um exilado francês que vai a Belém e se une ao movimento. “Na época havia, sim, um temor do Império quanto à aproximação das camadas populares, principalmente dos escravos e índios, com os franceses. Mas a Revolução Francesa saiu vitoriosa, enquanto o triunfo da Cabanagem está mais na memória”, diz Eliana Ferreira, historiadora e pesquisadora na Universidade Federal do Pará.

A partir de Belém, os rebeldes conseguiram manter o controle da província por pouco mais de um ano.

Intrigas e traições entre os líderes causaram tanto prejuízo quanto as tropas inimigas. O governo cabano nasceu de uma culminância de movimentos formados ao longo dos anos anteriores. Os vários setores que se juntaram ao levante fizeram sua força, mas não demorou para que as divergências aparecessem. O primeiro presidente indicado, Félix Malcher, simpático ao Império, foi chamado de traidor e assassinado em meio à disputa de poder com o comandante de armas, Antônio Vinagre. O cadáver foi arrastado pelas ruas, a exemplo do que acontecera com Bernardo Lobo de Souza. Antes de completar 45 dias o governo cabano já tinha um novo chefe: Francisco Vinagre, irmão de Antônio.

Ao todo, três líderes rebeldes presidiram a província. Já na primeira gestão, uma moeda antiga passou a ser reutilizada e só valia no estado. Cabanos se apropriaram de casas de famílias portuguesas ou ligadas ao antigo regime. “Em algumas fazendas, castigaram os senhores com as mesmas torturas que haviam sofrido antes. O porte de arma foi legalizado, o que dava aos cabanos a sensação de realmente pertencerem à cidade. Isso tudo representava uma grande mudança no cotidiano”, diz Ferreira. Mas em nenhum momento eles conseguiram consenso em torno de um projeto viável de governo.

Caos

A situação de Belém foi se tornando deplorável. Destruída pelos combates, enfrentou epidemias de varíola, cólera e beribéri. A população passava fome. A cidade ficou cercada por escunas e fragatas ligadas ao Império, onde se instalaram políticos e militares foragidos. O primeiro contra-ataque provocou a fuga dos cabanos para o interior. A ofensiva teve a ajuda do presidente Francisco Vinagre, em outro exemplo dos interesses contraditórios dentro do movimento. Os rebeldes resistiram sob o comando do irmão dele e de Eduardo Angelim. Em pouco tempo eles retomaram a capital e, aos 21 anos, Angelim assumiu o poder. Último presidente cabano, foi derrotado nove meses depois pela poderosa esquadra do brigadeiro Francisco José Soares de Andrea.

Angelim fugiu novamente da cidade, mas foi capturado e deportado. A violenta caça aos cabanos pela Amazônia prosseguiu até 1840. “Nesse período, a Cabanagem continua de forma que ainda não se sabe ao certo. Havia fortes lideranças em cidades como Vigia e Santarém, mas os estudos precisam ser aprofundados”, afirma Ferreira. Mais de 30 mil rebeldes foram executados, um terço dos habitantes da província. A tortura era comum. Militares exibiam colares feitos com orelhas secas de cabanos.

No fim da revolta, Belém só tinha mulheres, crianças e idosos. A participação feminina nas conspirações e combates é foco de estudos recentes. Muitas mulheres foram atacadas e violentadas, do lado cabano e das famílias ligadas à Regência. Não há provas de que elas tenham participado das frentes de batalha, mas é certo que atuaram nos bastidores. “Um dos exemplos é a dona Bárbara, uma viúva de militar que foi até a corveta Defensora munida de moedas de ouro. O navio abrigava presos políticos.” Eliana Ferreira sugere que ela tenha tentado comprar a liberdade de rebeldes. Parte do trabalho de troca de informações e suprimento de comida para os cabanos era feita por mulheres.
Mesmo sangrenta, a Cabanagem (1835-40) foi o mais bem-sucedido levante popular brasileiro.

(…) Esta Província foi rebelde, é e será por muito tempo: nem o povo se conservará em paz, nem pessoa alguma deixará de fugir daqui, se ela deixar de ser guarnecida convenientemente; mesmo se acabar aqui, a pura Administração Militar que lhe convém.” (Arquivo Público do Estado do Pará, Códice 1039, doc. 22).

Era significativo que Andréa recorresse a Grenfell para estabelecer um modelo de como lidar com os paraenses, uma vez que este nome era o símbolo do maior massacre ocorrido nesta província até então: o episódio do Brigue Palhaço, ocasião em que morreram mais de 250 pessoas em um porão do navio que serviu como prisão de soldados envolvidos no levante de 1823 citado por Andréa. Essas mortes, que correspondiam a 5% da população livre de Belém, não causaram horror apenas entre os paraenses: na Câmara o “massacre do Brigue Palhaço” foi várias vezes citado comoexemplo máximo de barbárie, sendo Grenfell processado por sua conduta assim que chegou a Corte (RAIOL, 1970: 45-52; MACHADO, 2010: cap. 4; MUNIZ, 1926: 201-207; MACHADO, 2009: 75-97). No elogio a Grenfell, chama a atenção que Andréa justificasse o fuzilamento sumário – sem direito a julgamento ou a defesa – como algo necessário em algumas ocasiões.

(ANDRÉ ROBERTO DE ARRUDA MACHADO)

Belém, 15 de Agosto de 1823 – Os Paraenses sangram para pertencer ao Brasil


A Libertação do Pará

Após o 7 de setembro de 1822, a luta eclodiu no Pará, uma vez que as juntas não reconheceram a Independência. Os liberais radicais encabeçados pelo cônego Batista Campos, e apoiados principalmente por comerciantes brasileiros, conseguiram, em janeiro de 1823, reunir número suficiente de pessoas para jurar a Constituição. Mas. No entanto, deposta a junta, os rebeldes do interior exigiram a formação de um governo popular, sob a chefia de Batista Campos.

Os Patriotas(liberais-radicais) se refugiaram no interior, onde passaram a conspirar, ganhando apoio das populações locais. As vilas de Cametá, Santarém, Macapá, Mazagão, Monte Alegre e Vigia transformaram-se em verdadeiros núcleos de conspiração. A adesão das massas populares às propostas de Batista Campos constituíram o começo de um processo que iria ter seu ponto culminante mais de dez anos depois(Cabanagem). Os núcleos de rebeldes assim constituídos isolaram a junta portuguesa, o que facilitaria posteriormente a tarefa do almirante Greenfell, enviado pelo imperador para impor um governo fiel.

A Primeira Câmara Constitucional (9 vereadores ) de Belém instala-se em 27 de fevereiro de 1823, após disputada eleição. O governador das armas, comandante das tropas portuguesas, general José Maria de Moura não estava feliz com a eleição e posse desses vereadores tidos como independentes à política de predomínio português, e por isso não compareceu à instalação da Câmara no Paço do Conselho. Ele reuniu seus comandados, os de maior confiança entre seus oficiais, em sua própria casa, decidindo o que fazer diante do fato da sempre crescente decisão paraense de aderir à Independência.
A idéia era depor a câmara. O coronel João Pereira Vilaça deu início ao motim em primeiro de março, prendendo imediatamente os vereadores, em sessão no Paço do Conselho, distribuindo a todos pelos quartéis de várias localidades do interior como Chaves, Acará, Monte Alegre, e assim por diante.

O Massacre do Brigue Palhaço (1823) – decorrente da Adesão do Pará, e gota dágua para a eclosão da Cabanagem.

RÉQUIEM À JOÃO TAPUIA

Quase uns trezentos homens sufocavam no porão do brigue “Palhaço” ancorado nas aforas do porto de Belém do Pará quando a gritaria começou. Berravam por água e por ar. Asfixiavam-se. Eram do 2º Regimento de Artilharia de Belém que se insurgira contra a junta governativa em agosto de 1823. Quem os prendeu e os removeu para a masmorra flutuante foi o comandante Greenfell, um daqueles ingleses oficiais de marinha a soldo de D. Pedro I, que lá estava para assegurar a integração do Grão-Pará ao Brasil recém independente.

Assustados com a barulheira dos encarcerados, meio endoidecidos pelo calor e pela sede, a tripulação da improvisada galé os acalmou a tiros e à noite espargiu sobre eles, ainda empilhados lá embaixo, uma nuvem de cal. Na contagem matinal do dia seguinte, no dia 22, só deram com 4 vivos. Dias depois restou só um, João Tapuia. Morreram 252 milicianos e praças, sufocados e asfixiados. Um pavor acometeu o Pará. O interior ferveu. Gente comum morrera como bicho.

Quanto a responsabilidade pela tragédia, como sempre ocorre, ninguém a assumiu. Para milhares de tapuias e de caboclos paraenses, genericamente chamados de “cabanos”, devido as choças que habitavam, a independência até então não dissera a que veio. Agregou-se a isso o fato dos poderosos locais, quase todos portugueses, donos do comércio grosso e de vastas terras, ainda reservavam para si o controle das instituições, e que, como ativista do partido dos “Caramurús”, almejavam reatar com Lisboa na primeira oportunidade que houvesse.

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Para apressar a adesão, foi mandado José Luís Arosa, um revolucionário do eixo Rio/São Paulo, e que teve logo o apoio de um italiano, João Batista Balby, que trabalhou intensamente para aliciar os oficiais brasileiros para a causa.
No dia 14 de abril, João Balby, acompanhado de oficiais e soldados do Regimento de Macapá, entrou no quartel do Corpo de Artilharia, no Convento de Santo Antônio. De surpresa, os rebelados detiveram a tropa do tenente-coronel José Antônio Nunes, com o domínio de todo o quartel. Mas a conspiração foi dominada pelos comandados do general Moura com o apoio da tropa do coronel           Vilaça. Os participantes da revolta só não foram executados sumariamente graças ao bispo D. Romualdo Antônio de Seixas, mais tarde Marques de Santa Cruz.

Em Muaná, no Marajó, também não foi diferente e o povo levantou suas armas e proclamou a tão desejada independência, em maio de 1823, sob a liderança de 200 homens. O idealismo marajoara foi sufocado com tropas armadas e fuzis, pelo militar português. No dia 13 de julho de 1823 a galera Andorinha do Tejo partiu para Lisboa, levando 267 presos muitos dos quais faleceram durante a travessia.

Os portugueses procuraram reforçar então suas defesas, como as baterias de Val-de-Cães, a Fortaleza da Barra, os fortes do Castelo e de São Pedro Nolasco impedindo a estrada de navios no porto. No dia 11 de agosto de 1823, entretanto, uma nau de guerra, de bandeira brasileira, fundeou na baía de Guajará. O comandante do barco, o capitão inglês (a serviço de D. Pedro I) John Pascoe Greenfell enviou, à terra, ofício do chefe da Esquadra Imperial, Almirante Alexandre Thomas Cockrane, de que o porto de Belém estava bloqueado e as forças imperiais exigiam a rendição de quem se opunha à Independência Brasileira, alegando que só restava o Pará ser integrado, e que ele se encontrava com uma esquadra de navios fora da barra, prontos para assegurar a adesão. Mas na verdade, ele só tinha um navio, porém essa estratégia já havia sido usada no Maranhão e dada resultada.
Desse documento também constava a afirmação de que as propriedades dos portugueses que aderissem seriam garantidas, devendo apenas prestar juramento de obediência à Sua Majestade Imperial. Também enviou a declaração do bloqueio do Pará e cópia do auto de adesão do Maranhão.

A Adesão acendeu o estopim da Revolução Cabana

O general Moura, com 600 homens entre marinha, milicianos, tropas de linha, voluntária inclusive de cavalaria, negou atenção ao comunicado. Presidia a Junta Governativa D. Romualdo de Sousa Coelho que informou ao general que iria reunir um conselho para deliberar sobre a situação. Ás 7 horas da noite de 11 de agosto, no Palácio do Governo, a junta governativa reuniu-se, tendo o comandante das armas José Maria Moura procurado adiar a decisão do Conselho, o que não ocorreu, pois o povo presente à reunião bradava, exigindo a adesão. A reunião encerrou-se às 23 horas. O Pará estava independente de Portugal, unindo-se ao Império. Em 15 de agosto de 1823, foi Proclamada da Adesão do Pará à Independência do Brasil.

Fonte: Ordem Brasílica

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Cabanagem – O Massacre do Brigue Palhaço


AOS CABANOS E AOS REBELDES DO BRIGUE PALHAÇO

A maior rebelião popular ocorrida na história do Brasil é a Cabanagem. Os cabanos – mestiços, indíos destribalizados e negros libertos – se levantaram em 1835 contra as precárias condições de vida na Província do Pará e a prerrogativa que a Corte tinha de nomear os presidentes das provincias.

A própria denominação dada aos rebeldes revela o caráter popular da rebelião paraense. Os revolucionários , em sua imensa maioria, moravam em cabanas nas periferias de Belém, do Baixo Tocantins, de Santarém e de Óbidos. Chegaram a assumir o controle da capital paraense durante quase um ano – logo após a ação da madrugada de 7 de janeiro de 1835, quando tomaram os quartéis de Belém e mataram o presidente da província e o comandante militar do Pará.

A repressão ao levante foi de ferocidade inacreditável. As tropas do Império, comandadas pelo marechal Francisco José Andréia, perseguiram de forma implacável os rebeldes, que à entrada do exército tinham se dispersado pela floresta e pelos rios da região. A repressão deixou o absurdo número de 35 mil rebeldes mortos – mais de 30 % da população do Pará. Leiam um relato de uma testemunha do massacre:


” Rebeldes verdadeiros ou supostos eram procurados por toda a parte e perseguidos como animais ferozes ! Metidos em troncos e amarrados, sofriam suplícios bárbaros, que muitas vezes lhes ocasionavam a morte. Houve até quem considerasse como padrão de glória trazer rosários de orelhas secas de cabanos”.
(Relato de Domingos Raiol).

No mesmo ano em que explodiu a rebelião no Pará, começou no Rio Grande do Sul a Guerra dos Farrapos; revolta separatista liderada pelas elites gaúchas que criavam gado e produziam charque. Não é sobre os valentes farrapos que esse texto versa. Quero apenas transcrever um pronunciamento feito pelo Barão de Caxias, comandante das tropas que combateram os separatistas do sul, ao final do conflito nos pampas:


“Reverendo! Precedeu a esse triunfo derramamento de sangue brasileiro. Não conto como troféu desgraças de concidadãos meus, guerreiros dissidentes, mas sinto as suas desditas e choro pelas vítimas como um pai pelos seus filhos. Vá reverendo, vá! Em lugar de Te Deum, celebre uma missa de defuntos, que eu, com meu Estado Maior e a tropa que na sua igreja couber, irei amanhã ouvi-la, por alma de nossos irmão iludidos que pereceram no combate”.

Bonito, não? Enquanto os cabanos – homens do povo – foram perseguidos, torturados e mortos que nem bichos na floresta, os fazendeiros gaúchos mereceram uma honrosa missa de defuntos com a presença do Estado Maior das forças armadas do Império. Enquanto orelhas secas de cabanos eram exibidas como medalhas do triunfo, os estancieiros mereceram o choro comovido do marechal – o pranto de um pai pelos seus filhos.

Vai esse texto, modestíssimo, em homenagem aos que não tiveram missa – os cabanos trucidados e os 256 rebeldes covardemente assassinados no porão do brigue Palhaço. Que batam sempre para eles os nossos tambores caboclos.

Abraços.

postado por Luiz Antonio Simas

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Belém, 22 de Agosto de 1823 – Réquiem a João Tapuia

Quase uns trezentos homens sufocavam no porão do brigue “Palhaço” ancorado nas aforas do porto de Belém do Pará quando a gritaria começou. Berravam por água e por ar. Asfixiavam-se. Eram do 2º Regimento de Artilharia de Belém que se insurgira contra a junta governativa em agosto de 1823. Quem os prendeu e os removeu para a masmorra flutuante foi o comandante Greenfell, um daqueles ingleses oficiais de marinha a soldo de D. Pedro I, que lá estava para assegurar a integração do Grão-Pará ao Brasil recém independente.

Assustados com a barulheira dos encarcerados, meio endoidecidos pelo calor e pela sede, a tripulação da improvisada galé os acalmou a tiros e à noite espargiu sobre eles, ainda empilhados lá embaixo, uma nuvem de cal. Na contagem matinal do dia seguinte, no dia 22, só deram com 4 vivos. Dias depois restou só um, João Tapuia. Morreram 252 milicianos e praças, sufocados e asfixiados. Um pavor acometeu o Pará. O interior ferveu. Gente comum morrera como bicho.

Quanto a responsabilidade pela tragédia, como sempre ocorre, ninguém a assumiu. Para milhares de tapuias e de caboclos paraenses, genericamente chamados de “cabanos”, devido as choças que habitavam, a independência até então não dissera a que veio. Agregou-se a isso o fato dos poderosos locais, quase todos portugueses, donos do comércio grosso e de vastas terras, ainda reservavam para si o controle das instituições, e que, como ativista do partido dos “Caramurús”, almejavam reatar com Lisboa na primeira oportunidade que houvesse.

Cabanagem – A formação militar na Tomada de Caiena


Invasão da Guiana Francesa

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Invasão da Guiana Francesa foi um episódio da história do Brasil Colonial ocorrido em 1809, quando o Principe-Regente Dom João, futuro Dom João VI, em represália pela invasão de Portugal por tropas de Napoleão, ordena a invasão da Guiana Francesa.

Um dos objetivos era redefinir as fronteiras do Brasil com a Guiana Francesa de acordo com o Tratado de Utrecht[1]. Ou seja, a fronteira voltariam ao rio Oiapoque, combinados no Congresso de Utrecht em 1713, anulando o estabelecido em Paris (1797), em Badajoz e em Madrid (1801) e mesmo em Amiens (1802)[2]

Por terra foram enviados 700 homens vindos do Pará comandados pelo tenente-general Manuel Marques, enquanto que pelo mar eram apoiados pela esquadra da Marinha Real Britânica, comandada por James Lucas Yeo, chefe das forças navais, a bordo da fragata Confiance[3] com 26 peças de artilharia, enviada do Rio de Janeiro, junto com os brigues Voador (com 18 peças, comandado por José Antônio Salgado) e Infante D. Pedro (com 18 peças comandada por Luís da Cunha Moreira), a escuna General Magalhães com 12 peças e os cúteres Vingança e Leão, comandados pelo tenente Manuel Luís de Melo. Os fuzileiros-marinheiros estavam sob o comando de Luís da Cunha Moreira, mais tarde visconde de Cabo Frio e primeiro ministro da Marinha do Brasil independente [4].

O primeiro combate foi travado em 15 de dezembro, às margens do rio Aproak, duas embarcações francesas são apreendidas. Algumas semanas depois as tropas inglesas e portuguesas partem para conquistar as principais fortificações francesas no rio Maroni.

Em 6 de janeiro de 1809 o forte Diamante é conquistado, no dia seguinte o forte Dégrad des Cannes e no outro o forte Trió[5], ambos na ilha de Caiena.

A tropa sitiou a capital, Caiena, cujo governador Victor Hughes se rendeu sem resistência, em 12 de janeiro de 1809[6], assinando em Bourda a rendição. A Guiana passou a ser administrada por João Severiano Maciel da Costa, depois marquês de Queluz[5], com a designação de Colônia de Caiena e Guiana[7].

Fonte: Wikipédia

7 de Janeiro em Belém


Esta data, a do levante Cabano,junto com a de sua fundação, 12 de Janeiro são as mais importantes para o povo paraense.

“A 25 de dezembro de 1615 a expedição partiu da baía de São Marcos, composta do patacho Santa Maria da Candelária, do caravelão Santa Maria das Graças e da lancha grande Assunção. Compunha-se de 150 homens, 10 peças de artilharia, pólvora e muita munição e mantimentos. O piloto-mor era Antônio Vicente Cochado, o francês Charies servindo de guia. As três embarcações eram comandadas por Pedro de Freitas, Antônio da Fonseca e Álvaro Neto. A viagem sem incidentes durou 18 dias. E a 12 de janeiro de 1616 os portugueses aportaram na baía de Guajará, chamada pelos nativos de Paraná-Guaçu.”

177 anos da Revolução Cabana

O Levante de 7 de Janeiro de 1835