Alice


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Ele andava há muito tempo poraí; tanto que estando parado mantinha a mesma impressão de movimento. Dizendo assim parece que a  aparente imobilidade somente gestava o próximo passo; gestava é forte pra ele, que nunca tivera filhos e, falando francamente toda a verdade, poucas foram as mulheres com quem  lembrava ter dormido, e ainda menos as que achara ao seu lado nas manhãs seguintes. Seguintes também é força de expressão, pois fazia tempo que sua memória reduzia-se, e não dava conta de sua vida por completo. Melhor assim.

– Foda-se!, escovava os dentes pela manhã.

Lia muito e tudo o que lhe caía nas mãos; sempre achara um desperdício o pisar das folhas soltas que bailavam ao vento pelas calçadas, aquelas incertas e libertas como ele mesmo também tinha que ser. Por isso adorava os domingos e as folgas dos garis, então os ventos da cidade sopravam muito muito forte, e os pequenos tornados – formados – levitavam um mundo em espiral diante de seus olhos.

De início tentou fazer coleção; ao cabo de poucos meses os escritos do vento pesavam demais para que ele pudesse carregá-los consigo; então guardou poucos: fotos de aniversário, colações de grau,  necrológios… ele se inteirava das bocas-livres e por isso aprendeu a gostar de ficção, e achava aquela forma – última – a maneira mais violenta e rápida de derrotar alguma verdade de uma vida inteira, em poucas linhas. Guardava para si a esperança de que alguém como ele um dia lesse, num pedaço de jornal trazido pela brisa da manhã: “Morreu Fulano, será cremado às tantas horas, e suas cinzas serão lançadas em lugar incerto…”.

– Então vida e morte seriam fragmentos de notícia que me chegam ao acaso? Pensava, e (L) ia.

Foi num entardecer chumboso que ele a reconheceu sob a marquise: Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez de andarem juntos…Era ela!

Conheceu-a pelos olhos, tristes como os dele mesmo, brilhantes também; tentou em vão levantá-la ilesa da calçada em que ambos jaziam, molhados pela chuva; ela cedeu primeiro, mas só em parte; a outra – de costume – ficaria presa para sempre às duras pedras de lioz.

Encabulada, e com muito custo, revelou-lhe o nome entrecortado.

Eudyr
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Os muitos trabalhos de Zércules


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30 meses após a primeira publicação, é com muita satisfação que o Blog TAPIRUS republica esse conto.

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O Primeiro trabalho de Zércules foi logo o do próprio parto, que pode bem nem contar, por não ter sido todo dele; mas em que ajudou, ajudou, e muito. Sabe lá o que é nascer de mãe menina, num sertão qualquer do Brasil?

Nhá parteira depois lhe disse que ele já nasceu com cabelos e dentes. Dos cabelos soube logo a serventia: piolhos. Dos dentes só descobriu após quatro anos de idade.

Com três quilos de peso, cabelos e dentadura, Zércules era grandinho, e toda gente admirava. Não demorou pro menino quase morrer de quebranto; veio preto benzedeiro, teve reza, teve canto. O menino resistiu, como não era de costume. “Milagre de Deus”, diziam as antigas. E o menino sessorria.

Aos três anos já varria o terreiro seco, quando pegou barriga dágua; dizque a dinda dessa feita lhe rezava ao pé do ouvido: “Se é pra viver como bicho, que fique de vez menino”.

Pra variar, Zércules ficou meio bom; porque ali ninguém era de todo são.

Rapadura com farinha é que faz Homem. Dizia a tia, ao ver o menino taludo. De fato dos zero aos quinze, com exceção das folhas de Palma e uma carne de boi magro nos arroubos do Coronel, esperança era quase todo seu alimento.

A mãe morreu de febre quando lhe aparecia o buço. Tomou de conta dos irmãos trabalhando na lavoura de cana do Coronel. Todos faziam isso. Desde sempre. Quase de sol à sol carpia as canas e a vida. Vivia ainda só de esperança.

Conheceu Lindalva – o nome lhe cabia bem: pele clara, cabelos idem, olhos bem abertos para a vida – perto de completar tempo. Faria dezessete anos e já se tornara Homem numa vez que fora à Vila. Lindalva ainda não era mulher. Mas ele a via como mãe, e mulher. E ela também se via assim.

Não deu tempo de casar, e não haveria mesmo o casório. A Igreja era cara, e a pressa era muita.

Na casa nova de adobe, dizia ao filho o pai recente: “Esse vai ser mais que eu, esse moleque vai ser gente!”
Nessas horas de amém, Lindalva erguia uma prece e baixava os grandes olhos De gente…

(E.J.)

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Sobrenome Silva


Em um programa de auditório, pré-gravado, diante da claque selecionada,  pulsa fortemente ao menos um coração.

Nas horas mortas da tarde de um fim de semana qualquer, no palco ricamente decorado, uma mulher grávida de sete meses olha atentamente o envelope esgrimigo pela apresentadora do programa. Dentro dele – a mulher sabe – jaz um adjutório financeiro que, bem utilizado, livrará sua família ao menos por enquanto das necessidades mais prementes.

O bebê que carrega consigo será o segundo de uma série não programada de partos; não existiu a biblioteca de Alexandria, do Caio Fernando Abreu, a separar sua mente dos outros corpos, e talvez por isso ela sorri encabulada quando lhe perguntam sobre as condições econômicas da família.

Um resto de dignidade sobrevém num abaixar do olhar, ela queria estar lá e ao mesmo tempo bem longe dali; mas no lugar mais íntimo de sua alma sente-se aquecida e acarinhada com o tom de voz cuidadosamente escolhido pela apresentadora; pelas palavras que ela escuta já quase sem ouvir; pela vibração anônima da platéia; pelo investimento dos patrocinadores.

Tudo a induz ao choro alegre de quem recebe inesperadamente algo que não tem como retribuir. Mas ela não se deixa vencer pela sensação de débito moral; recupera-se do abandono voluntário de si mesma e, subitamente, resolutamente, ergue tão alto a cabeça que aparenta estar mais alta agora do que quando entrara no palco; recebe o envelope, agradece, e sai decidida a não esquecer aquele dia em que estivera tão frágil e tão forte ao mesmo tempo.

(E.J.)

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Milanos


Agora não lembro se estava aqui quando escureceu,  só me sei deitado nessa areia, de cara pra cima, meio de repente… Estou?

                                                       Onde?

Vejo um facho de luz e o deixo passar,  pra lá e pra cá. Deve ser um farol. A merda é que não desejo ou não preciso me mover, e assim consigo não saber onde estou. Daqui só vejo a droga do facho. Ao menos minhas costas já não doem tanto agora. Podia ficar por milanos assim, olhando essa mecha de luz que se move como um ponteiro de segundos.

Melhor se fosse uma ampulheta, pensei e ri, ampulheta porque? Pra me cobrir de areia e tempo…

E.J.

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A Vizinha da Direita


Dizem que vizinhos são os parentes mais próximos. Certamente essa história é tão remota no tempo quanto no espaço.

Nasci e fui criado em uma cidade grande, onde os vizinhos eram muitos, mas muito pouco aparentados. Nos últimos anos tive que mudar de endereço uma meia dúzia de vezes; por inúmeros motivos; o fato é que via com maus olhos quando meus novos “parentes” corriam às portas e janelas ao ver o caminhão com a mudança chegando – Alguns nem se davam ao trabalho de disfarçar e já vinham com as cadeiras se assentarem na calçada para melhor inventariar meus caraminguás.

Mais tarde desconfiei da mediunidade de alguns deles, sempre presentes, ainda que no silêncio das horas mortas.

Num dia em que estava especialmente alegre, cometi a tolice de oferecer um quilo de camarão dos grandes para a vizinha do lado direito, uma viúva que eu conhecia de vista, tantas eram as vezes que ela passava à frente da minha janela, sempre olhando pra dentro de casa. Não é preciso dizer que essa bendita gentileza virou motivo de abordagens na rua: “E aí vizinho, cadê o camarão?” Ela me perguntava sempre que me via, depois invariavelmente emendava a conversa falando mal da minha vizinha da esquerda, com quem não se dava bem…arre, eu mereço!

Outro dia, em que eu estava especialmente irritado, ainda mais porque era sábado e a mulher resolvera fazer uma faxina em casa, eu levava uns móveis para o pátio interno pra poder encerar o chão da sala, quando a dita vizinha passou, numa de suas muitas patrulhas matinais e, apontando para um deles, perguntou: “O senhor está dando?” E eu, seco: “Não, e a senhora??”

Depois disso, foi só bom dia e boa noite… Amém!

E.J.

Simone Maraschino


Andando por Belém, encontrei o Carlos, antigo amigo que nunca mais vira. Os cumprimentos de praxe, alguma conversa que por anos não concluímos, uma tarde já de tarefas cumpridas e me vi nessa mesa de bar;  com uma dose de conhaque já servida diante de mim. Carlos diz: E a Simone, tem visto?

Não, eu não a vira mais desde aquela noite, respondi por telepatia, enquanto mexia com o dedo a rodela de limão no fundo do copo. Papo antigo tem disso, tanta coisa se passa mas fica pendente para os outros.

– Não, e voce?

Ele a vira de relance numa esquina da vida, de um bairro mal frequentado – Era tarde (ou cedo) – ele diz, rindo – ela me olhou e não sei se me reconheceu, eu estava meio ruço…rss

Carlos está certo, pensei, teve tempo em que tudo era meio ruço.

– Voce tem uma arma? Foi a primeira coisa que Simone falou quando sentou ao meu lado no carro. Não, e nem gostaria de ter, falei, azedo. Adoro armas! e trançou as pernas como quem precisa há muito mijar. Simone era uma bela garota, quase definitivamente mulher. Cabelos avermelhados até os ombros, maquiagem um pouco carregada, e aqueles olhos amarelos esverdeados onde eu poderia facilmente me perder. Ela percebeu meu gesto brusco, meu ponto fraco: Que foi? e me riu engraçado…

Nada.

– Leila Lopes morreu, né, Primo? Que desperdício! hahahahahaha – Carlos já estava ficando bêbado, e só com duas taças de vinho. Se ainda o conhecia, agora iria pedir a saideira, e depois outra e mais outra; até eu ter que carrega-lo para o carro e dirigir até a porta de sua casa.

– Nada não! voce me olhou esquisito! –  Simone falava pra mim e ria agora com todos os dentes. Perfeitos, aliás. Pra onde voce vai me levar? Agora eram os dentes e o olhar cínico para mim.

Eu não havia pensado em destino. A idéia inicial era deixá-la noutro barzinho, balada, sei lá! E aquela história de arma me soou estranho; queria que ela descesse em qualquer lugar, antes que a sua noite ruiva me fizesse parar nalgum drive-in.

Vamos pro meu apartamento; eu disse, em tom de pergunta retórica…

Manhã seguinte acordei. Manhã é força de hábito pois nem sei que horas eram. olhos vidrados, músculos doloridos de um triatlon que eu ainda não lembrava de ter participado, e aquele vermelho vivo espalhado pelos lençóis. Simone tinha ido para sempre, mas deixara o doce gosto de sua passagem.

E.J.

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O Furo


Ela via a paisagem urbana passando rápido diante dos olhos, mais rápidos ainda corriam seus pensamentos. Dentro do furgão da emissora que chegara às pressas da capital, o burburinho da equipe de TV, o som das sirenes das viaturas policiais que lhes abriam caminho, os olhares assustados dos transeuntes nas calçadas, todo aquele clima de urgência chegava a lhe reter a respiração.

Nunca fizera qualquer matéria relevante naquela cidade onde quase nada acontecia; leilões de gado, feiras e merchandising de açougues e mercearias eram sua pauta de todos os dias…agora isso! Revisava mentalmente sua fala quando finalmente entrasse – ao vivo – para todo o país, quiçá o mundo; seria com certeza o ponto alto de sua já longeva carreira de jornalista, o ponto culminante de sua vida até então, e ela saboreava antecipadamente cada segundo dessa hora. E por dentro tremia de insegurança e orgulho.

Equipes jornalísticas de vários países já estavam à caminho da cidade, ela e sua equipe porém seriam os primeiros a gravar e divulgar ao mundo as imagens do fato. Um furo internacional! repetia de si para si…mal crendo que estava a poucos segundos da própria consagração. O camera-man lhe dava uns macetes sobre enquadramento e travelling; grande plano geral e plano americano; ao que ela ouvia atentamente sem esquecer de fingir um certo ar blasè dos que – não como ela – viviam esse meio como fato corriqueiro.

Lembrou das dificuldades da infância, da leve dislexia que a atrasara na escola, da faculdade de jornalismo que tanto sonhara e que nunca conseguira cursar. Aprendera tudo com sua força de vontade e na prática;  agora era ela, uma “sub-profissional”  como ouvira certa vez na redação, a quem cabia informar à humanidade; seria dela a imagem em primeiro plano que viajaria por incontáveis satélites em torno do planeta, até chegar às mansões e aos lares mais humildes, como era o dela mesma.

Se houvesse um espelho naquele furgão, ela decerto veria suas feições transmudadas.

Pelo celular informaram que um helicóptero da CNN já se deslocava celeremente ao local do acontecimento, e que se não se apressassem seriam os segundos na cena. Pé em baixo, o motorista fazia curvas improváveis pelas estradas de terra já da zona rural. Urgia chegarem rapidamente, enquanto os pneus cantarolavam cada vez mais alto uma estridente cantiga de morte…

Nesse ponto paro de escrever e me sirvo uma generosa taça de vinho Periquita, como faria o personagem Mandrake, de Rubem Fonseca:

– Devo matá-la? Penso alto enquanto acendo outro cigarro; está ficando notório que meus contos não acabam. Como Murilo Rubião tendo à ciclicidade; melhor dizendo, ao moto-contínuo em minhas curtas estórias. E daí?

Retorno ao teclado ainda na incerteza do óbito. Ela merece alcançar uma felicidade na vida, mesmo que fugaz. Ou: O que importa é o caminho, as pedras e os desvios, não propriamente chegar-se ao destino, coisa tão óbvia! Auto-perguntas retóricas, prova de uma certeza que ainda não se admite real, de uma tentativa de auto-convencimento…ou não.

Foi numa das curvas fechadas que avistaram o helicóptero. Estavam a pouco menos de dois quilômetros do destino, e o motorista gritou para trás: Segurem-se que vou meter o pé! Ato contínuo acelerou o furgão. Ela retocava a maquiagem e caiu sentada num banco; uma risca vermelha viva de baton no rosto, e uma lágrima contida de quem sempre esteve prestes a conseguir.

E.J.

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Coca e Fanta


Coca nascera Carolina, mas detestava as formalidades da família e o liberalismo alcalóide dos amigos, então aceitou a alcunha como uma espécie de desambiguação de si para si. A verdade é que ela mesma forjara o apelido; a mãe o achava terrível, os amigos, descabido; então essa palavra mágica lhe permitia transitar sem grandes sustos entre universos tão distintos, guardando distância segura. Conheceu Fanta numa sessão de cinema “cult”, daquelas frequentadas por gente esquisita, nas sextas feiras à noite. O filme era Ladrões de Bicicletas – filme em preto e branco tem um quê de enigmático, Fanta dizia, é como se a ausência de cores encerrasse algum mistério, o que seria impossível num filme colorido. Parece que a qualquer hora vai rolar um Psicose, aquela cena do chuveiro, sabe como é?

Foi numa dessas sextas que Coca ouviu chamarem alguém de Fanta. Curiosa com o nome, acompanhou com o olhar quando um tipo tatuado, cabelos avermelhados e curtos, atendeu ao chamado. Daí a descobrir terem amigos em comum foi o tempo de um instante; a amizade viria ainda mais rápida.

Fanta era Teresa, mas poucos sabiam. Seu apelido vinha do fato de que, admirada ou satisfeita, quase sempre falava: Fanta!!. Uns meses e duas garrafas de vinho depois foi que Teresa confidenciou que aprendera a palavra num conto do Chacal, a quem amava de paixão.

Fanta não estudava mais, parou quando concluiu o segundo grau, o que coincidira com as mortes de seu pai e irmão num acidente de trânsito.  A situação financeira ficou difícil, dívidas vencidas do pai, a casa hipotecada, de sorte que ela largou o cursinho sem que a mãe lhe pedisse, e a partir daí declarou-se autodidata. Fazia isso há dez anos.

Teresa jogava-se de corpo e alma às experiências sensoriais, o que incluía degustações as mais diversas, bebedeiras homéricas e amores desfeitos que com o tempo minaram sua saúde. Era Fanta quem ficava quando Teresa ia embora.

A quase ausência de cuidados e cuidadores tinham aos olhos de Coca um fascínio especial de futura enfermeira. Fanta adivinhou-lhe esse sentimento, ao qual apreciava; e não raro causava-se danos, cometia exageros ou queixava-se de sintomas para ver-se cuidada pela amiga, que se alguma vez percebeu algum embuste, guardou para si.

Apesar das dessemelhanças evidentes – quase antagonismo mesmo – Coca e Fanta encaixavam-se na vida uma da outra, completavam-se. De um lado o desejo secreto da fuga, de outro, a vontade incontida do retorno.

Pré delíquio


Eram dias de festa na Vila. Dias do Santo padroeiro, que dera nome desde às crianças bem nascidas até aos borregos dos sítios afastados. E de longe vinham as gentes, recebidos como alegres comensais.

Rojões espoucavam de quando em quando, causa das urras dos meninos e dos impropérios das caboclas mais antigas. Cachorros corriam, sem destino mais certo do que o de evitar os frequentes pisões dos passantes no andar pelas casas.

Nessa correria febril, ninguém perceberia a calma quase melancólica de Angélica, destoando da excitação geral.

Na tardinha, os filhos dos fazendeiros, vindos da capital com suas namoradas e amigos, desfilavam pela praça da matriz, à bordo de barulhentas carroças puxadas por juntas de bois, acenando ao público.

-Não pode! – dizia uma moça; deveriam desfilar com os seus carros da cidade, pra gente olhar! Isso de andar de carroça de bois é coisa de matutos. Querem é esnobar a gente, dizia outra. Mas todas e todos se encantavam com o mundaréu de gente que assomava à pequena Vila.

Vestida simplesmente – como ditava sua condição – Angélica preparava na cozinha o que seria servido aos convivas no almoço do dia seguinte: as mais gordas galinhas do terreiro; Codornas, leitões, dois carneiros carnudos, a infalível rês; e um jabuti cozido com farofa e limão, agrado ao Comandante José Soares, que vinha do norte. A todos os ìtens Angélica deu especial atenção, como se fosse a última vez. Como se fosse a primeira vez.

À degustar os acepipes, no alpendre; o Compadre – que no correr da Parati já era tratado como Barão ou Coronel – mandava vir da cozinha mais e mais comidas. Estas eram entronizadas como delícias indispensáveis. Nada mais nem menos do que a obrigação de um bom anfitrião. E os copos e bocas cheias erguiam outros Vivas ao generoso Beneficente.

‘Só nessa rede fiz três!’ – falava sobre os filhos bastardos o já rico e insolente Barão, balançando na rede nova rendada – ‘Em outras mandei enterrar os desafetos!’, concluiu com gestos largos; agora valente também.

Angélica ouvia isso, despresente como estava, amolando uma faca de ponta, pronta; lembrando de outras crias que tivera de imolar à mando daquele Homem. Mas ela não podia guardar mágoa: aquilo foi coisa da sorte – sempre dos outros; e das dores – sempre suas.

Naquela noite, Angélica foi até a rede nova do Coronel, e o preparou para o dia seguinte.

By Eudyr J.

Plenilúnio


Havia um perfume que ainda perdura no ar; mais leve, talvez influência da Lua, com certeza cheia.

E ela chegava quando eu já estava distraído. Desesperando, esquecido por encanto do encontro.

Ela não.

Na sua breve eternidade, seguia meus passos como um cão faminto segue um osso carnudo; e eu a seguia como se estivesse no cio.

Cães se encontram pelas ruas na madrugada.

Acho que fui eu quem recitou algum poeta impublicado, com certeza um ex amigo, vencido por um mal à descobrir.

Ela achava graça nisso, e dizia que eu deveria escrever. Eu dizia que não queria ser póstumo, não ainda. E nós ríamos da ausência futura.

Os Muitos trabalhos de Zércules


O Primeiro trabalho de Zércules foi logo o do próprio parto, que pode bem nem contar, por não ter sido todo dele; mas em que ajudou, ajudou, e muito.
Sabe lá o que é nascer de mãe menina, num sertão qualquer do Brasil?

Nhá parteira depois lhe disse que ele já nasceu com cabelos e dentes.
Dos cabelos soube logo a serventia: piolhos. Dos dentes só descobriu após quatro anos de idade.

Com três quilos de peso, cabelos e dentadura, Zércules era grandinho, e toda gente admirava.
Não demorou pro menino quase morrer de quebranto; veio preto benzedeiro, teve reza, teve canto. O menino resistiu, como não era de costume.
“Milagre de Deus”, diziam as antigas. E o menino sessorria.

Aos três anos já varria o terreiro seco, quando pegou barriga dágua; dizque
a dinda dessa feita lhe rezava ao pé do ouvido: “Se é pra viver como bicho,
que fique de vez menino”.

Pra variar, Zércules ficou meio bom; porque ali ninguém era de todo são.

Rapadura com farinha é que faz Homem. Dizia a tia, ao ver o menino taludo. De fato dos zero aos quinze, com exceção das folhas de Palma e uma carne de boi magro nos arroubos do Coronel, esperança era quase todo seu alimento.

A mãe morreu de febre quando lhe aparecia o buço. Tomou de conta dos irmãos trabalhando na lavoura de cana do Coronel. Todos faziam isso. Desde sempre.
Quase de sol à sol carpia as canas e a vida. Vivia ainda só de esperança.

Conheceu Lindalva – o nome lhe cabia bem: pele clara, cabelos idem, olhos
bem abertos para a vida – perto de completar tempo. Faria dezessete anos e
já se tornara Homem numa vez que fora à Vila. Lindalva ainda não era mulher.
Mas ele a via como mãe, e mulher. E ela também se via assim.

Não deu tempo de casar, e não haveria mesmo o casório. A Igreja era cara, e a pressa era muita.

Na casa nova de adobe, dizia ao filho o pai recente: “Esse vai ser mais que eu, esse moleque vai ser gente!”
Nessas horas de amém, Lindalva erguia uma prece e baixava os grandes olhos De gente…