Calendas de Janeiro


É possível ter pena de si mesmo; esse caminho é tentador, e tão fácil de trilhar porque não desafia. E onde está a graça nisso? Pensando assim é que olho a pia cheia de louças por lavar; as roupas que se acumulam pelos cabides, usadas à exaustão ou, melhor dizendo, ao limite da educação e da amizade.

Se achando esquecido, Corisco – o gato – nunca demonstrou tanta amizade por mim quanto agora; até parou de me mordiscar quando eu o afago. Sinal dos tempos. Sem dúvida é um animal muito mais inteligente do que eu supunha.

O fogão continua lá, cheio de bocas, gritando em silêncio o desafio das panelas; ligo pra um delivery caseiro e zás…! Problema resolvido, por ora. Melhor não me arriscar em minha própria gastronomia, ou: “Nunca se drogue com sua própria mercadoria”, isso serve para donos de bar e traficantes; para mim também serve, por ora.

Na cama em que ainda não me espalhei, o outro lado se ocupa com tralhas, roupas e coisas que surgem dos bolsos a cada vez que chego da rua. Penso que essa displicência seja a mais proposital de todas…

Foi só quando precisei de um melhor amigo que percebi o quanto eu estava indisponível. Isso explica a estranha sensação de estar seguindo – com atraso – minhas próprias pegadas na areia.

Muita calma nessa hora! rss

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Saudades em Tempo de Facebook


Para meus amigos que sentem saudade

Antes eu me perguntava o porquê de sentir tanta saudade. Saudade de tomar banho de mangueira no quintal, pois agora moro em apartamento. Saudade do cheiro do chá de camomila e do colo de minha avó. Saudade de quando meu avô saía de casa e trazia balas de café e de quando ele falava italiano comigo, mesmo sem eu entender nada.
Mas um dia desses, descobri que eu nasci no dia da Saudade – 30 de janeiro. E numa dessas obras do acaso, meu pai me registrou com o nome de Saulo. O que faz com que mais da metade do meu nome seja dominado pela saudade. Sau(lo)dade.
E hoje a saudade, que sempre foi três de minhas cinco letras, tomou conta de todo o meu alfabeto. E desde que tu foste embora, eu fiquei sem nada. Afinal saudade é coisa que ninguém tem. Saudade é não ter! Pois não se relaciona com o amor que ainda tenho, mas com o sentimento que tu tinhas por mim… Mas não tens mais.
Saudade era o lugar onde habitavam teus gestos, teu toque, teu carinho. Saudade é um ambiente dentro de mim onde a luz apagou e tudo se petrificou; um cavo escuro que não ouso tocar, mesmo estando tão perto.
Saudade é voltar pra casa e encarar todos os objetos, e móveis, e quadros, e descobrir que tudo agora tem dois lados. O que os objetos realmente são… E o que eles eram quando tu existias no meu mundo. Saudade é sonhar que tu retornes ao nosso lar e dê sentido à margem direita da minha cama, e traga a vida de volta aos porta-retratos, e aos livros da estante, e aos peixes do aquário.
Saudade é ver comercias de filmes na TV e lembrar que vimos estes filmes juntos. E saudade é nunca mais assistir certo filme do Woody Allen porque foi a primeira vez que fomos ao cinema.
Saudade é manter o teu telefone na minha agenda mesmo sabendo que teu número mudou… E ainda assim discar, sabendo que ninguém vai atender. Saudade é desconhecer teu novo número e fazer milhões de combinações absurdas começando com oito. E saudade… É sentir falta de ti, mesmo sabendo que teu número começa com oito só para ser mais barato falar com teu novo amor.
Saudade é saber que tu nunca mais vais me mandar um SMS dizendo “boa semana”. Ou “boa prova”. Ou “não importa o que aconteça, eu estarei do teu lado.” Saudade é retornar a ligação para todos os números estranhos que me ligam num desesperado sonho de que possa ser tu.
Saudade é esperar por um contato teu no dia do meu aniversário. E passar o dia todo agoniado… Pedindo a Deus para que me mandes um simples tweet dizendo “feliz aniversário @saulosisnando.” E saudade é chorar às 2h00 da manhã do outro dia, quando descubro que tu me mandaste esse tweet.
Saudade é escrever este texto e o meu playlist colocar aleatoriamente aquela música que tanto significava para nós… Saudade é me pegar fazendo coisas, que antes odiava, mas agora faço com prazer e te imaginar dando risada e dizendo: “não te disse que assim era melhor?”
Saudade é te bloquear no facebook. E dias depois criar um fake só para ver a fotinho do teu profile. E lembrar como teus olhos pretos são lindos. Saudade é entrar Orkut para ler os teus antigos depoimentos apaixonados, que ainda estão lá, e que eu tenho tanto medo que, um dia, tu apagues.
Saudade é beijar outros lábios… Para esquecer os teus. E mentir para todos dizendo que já te esqueci. Saudade é ter uma caixinha cheia de lembranças que trouxe de Londres e não ter coragem de entregar. Saudade é sair de casa, torcendo para que alguma coincidência faça teu carro parar ao lado do meu… E eu possa te cumprimentar de longe e teus lábios inaudíveis desenhem um “eu te amo” no vento.
Saudade é o choro que surge enquanto eu digito estas palavras e a desesperada esperança de que as letras sejam fortes a ponto de te trazerem de volta. Porque ainda te amo.
E saudade é a vontade de que o leitor imprima esta página e entregue para aquele amor de quem ainda sente saudade, pois no meu sonho de escritor, já que eu não posso trazer meu grande amor de volta, que estas palavras devolvam ao leitor aquele que nunca esqueceu.
Que o teu volte para ti. E o meu volte para mim. E que o buraco no meu peito se feche. E a saudade seja algo que habite apenas os meus textos passados.
Que tu sejas meu futuro.

 

Saulo Sisnando
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Mano Menezes, o fraco


Na hora da derrota de qualquer selecionado brasileiro é facinho fazer a lista dos guilhotináveis; A Globo, por exemplo, pegou no pé do Dunga desde que ele moralizou o acesso à concentração brasileira. A rede perdeu um pouco das regalias obtidas à peso de ouro das mãos de um cartola da CBF. Aquele mesmo que tinha um sogro na FIFA, e cujos escândalos são tão bem conhecidos na Suíça, que o tal cartola teve que devolver alguns milhões de euros devido à condenação por irregularidades.

Mano Menezes caiu de para-quedas na seleção, e até agora não mostrou a que veio. Falta-lhe carisma, intuição; falta-lhe o respaldo moral porque se sabe incompetente para o cargo.

SE o Brasil tivesse ganho essa medalha inédita e tão almejada, haveria luto na Globo. Eles precisam ignorar um evento que não transmitem com exclusividade, e isso seria impossível diante dessa conquista. Mais uma vez os que torcem contra nosso país tem motivos pra comemorar.

Nem todos os tuitaços do “Cala boca Galvão” foram suficientes para que a entidade maior do futebol nacional tomasse vergonha na cara e atendesse ao seu público PAGANTE. Há milhões de interesses em jogo, e cada Capo quer levar seu quinhão.

Mano Menezes é fraco demais para conduzir uma paixão nacional.

FORA MANO!

(E.J.)

Londres 2012: Mistura de Mary Shelley e Fritz Lang


Decepcionante talvez não seja a palavra mais exata para definir a festa de abertura dos XXX Jogos Olímpicos da Era Moderna, em Londres; confusa sim.

Londres 2012

A cada edição as cidades organizadoras primam pelo desejo de sobrepujar – em pompa e circunstância – as edições anteriores. Em que pese a declarada economia deste ano – efeito da crise nacional que afeta o Reino Unido e toda a Europa – teria sido gasto menos da metade do que foi em Pequim, ainda restou a sensação de quero mais.

O conjunto da obra assemelhou-se à criatura da, também londrina, escritora Mary Shelley; uma colcha de retalhos sem harmonia, sem diálogo entre suas partes. Pareceu-me que estavam ali opostas, embora justapostas.

Em dado momento tive a nítida sensação de estar assistindo a uma refilmagem de Metrópolis, de Fritz Lang, 1927.

Aliás os ingleses abusaram dos vídeos. Foi difícil saber ao certo o que era filme e o que estava de fato acontecendo no estádio. Sem querer mas já comparando, os chineses tiveram mais audácia nas suas performances. Fazer um espetáculo desses, com bilhões de espectadores no mundo inteiro, requer criatividade  e arrojo; entendo que os súditos da Rainha Elizabeth queriam fazer bonito sem se arriscarem a vexames, mas nessa relação de custo/benefício quem saiu perdendo foi a plasticidade do espetáculo.

Metrópolis, 1927

O único destaque positivo ao meu ver foi a pira olímpica. Inovadora, e concebida no ideal olímpico do congraçamento dos povos.

Outra coisa que mereceu reflexão foi a narração da equipe da Rede Record; muitos que ouviram não ligaram o rosto à pessoa, pareceu que estavam narrando um outro espetáculo. Emir Sader, no tuíter sintetizou: “Parece uma Broadway chinfrin”…

Aos críticos da Olimpíada no Brasil fica a pergunta: Com toda nossa criatividade e riqueza de costumes, conseguiremos fazer pior do que os londrinos?

Duvido.

(E.J)

O Templo de Salomão


Sábado de manhã. Acordo com a cabeça cheia de idéias e sento frente ao teclado disposto a parir as palavras que darão matéria e peso ao que ainda é só etéreo.

Até Caifás ficaria corado!

Assisto a TV pelo rádio, só ouvindo sem ver, o Bispo Macedo na sua eterna campanha por recursos. Desta vez o mote são as obras do “Templo de Salomão” – uma construção faraônica, que daria inveja a Ramsés, e cujo andamento necessita agora de R$ 64 milhões para garantir a grandiosidade da obra de Deus.

Paro um pouco os dedos sobre as teclas e me disponho a ouvi-lo.

Em dado momento o Bispo afirma que mesmo um dinheiro de origem espúria, se dado em doação para a IURD, será agradável aos olhos do Senhor, que – apesar dos outros pecados – levará em consideração esse nobre e piedoso gesto na hora do julgamento final. A lógica é que se uma alma perdida investe na construção de um templo de conversão, com expectativa de milhares ou milhões de remissões de outras almas perdidas, essa alma caridosa comprará – além de telhas e esteios – uma certa condescendência de Deus com seus pecados.

Parece um bom negócio, ainda mais quando se sabe que esse tal dinheiro espúrio veio na verdade de sacrifícios inomináveis de outras pessoas, ou seja, dá-se esmola com a mão de outro. Sem dúvida há muita virtude nisso. A lei dos homens exigiria a devolução, mas se Deus aceita esse “sacrifício”, o que custa fazê-lo?

Se bem me recordo, o deus do Antigo Testamento puniu Salomão condenando-o a nunca concluir o templo. Naquela época deus tinha princípios morais um pouco diferentes do que tem hoje.

Em outra passagem do programa, um outro Bispo chama Macedo de “profeta”, pois teria dito que os que ajudarem nessa obra de fôlego enriquecerão. è uma profecia, ele disse.

Pouco antes de ficar abismado com tantas apelações, lembro aliviado daquela figura pobre, que andava descalço pelas pedras da palestina, seguido por um punhado de homens que nada recebiam para segui-lo.

Em que ponto do deserto enterraram os despojos do Mestre?

 

(E.J.)

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Drummond: 110 anos do Menino Antigo


Amo o Drummond por todas as palavras que ele escreveu, e ainda mais pelas que – mineiramente – escondeu nas entrelinhas para que eu mesmo as descobrisse. (E.J.)

Mundo Grande

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:

preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem… sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo…
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.

Definitivo

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções
irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado
do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter
tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que
gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas
as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um
amigo, para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os
momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas
angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma
pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez
companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um
verso:

Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do
sofrimento,perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional…

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In bocca al Lupo


Ontem ouvi a expressão que dá nome a esse post num filme antigo;  numa daquelas partes em que a dublagem se faz desnecessária e até dissonante. Pesquisando, vi que tratava-se de um antiquíssimo costume italiano, de Roma pra ser mais exato, e que remonta às origens míticas daquela cidade.

Rômulo e Remo – fundadores deRoma –  foram resgatados e criados por uma loba, alimentando-se do leite dela, daí a expressão “In bocca al Lupo” significar um desejo de boa sorte, um desejo de proteção.

É impressionante como um fato aparentemente perigoso e indesejável pode adquirir uma conotação inversa.

O mesmo se dá com a expressão francesa “Merde!”, muito utilizada entre os atores nas coxias dos teatros. Nesse caso desejar Merde aos demais é o mesmo que desejar que o espetáculo tenha bom público. A quantidade de merde de cavalos em frente aos teatros representava o número de carruagens e, portanto, o montante de público presente.

Nem sempre o aparente politicamente incorreto o é.

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Uma história simples, de gente


O caso que passo a narrar é tão verossímil que pode muito bem ser realidade, por isso não serão dados nomes aos personagens.

A Sra. A vinha de uma família humilde, um degrau acima da pobreza, e talvez pela proximidade de aspirações e pelos amigos comuns, conheceu, se apaixonou e finalmente casou-se com o Sr. A.

As bodas foram bem simples, poucos convidados escolhidos à dedo; a festa fora fruto de alguns anos de economia e não poucos sacrifícios de ambos; a Sra. A radiava de felicidade com seu vestido emprestado de uma prima, o Sr. A, altivo e orgulhoso, trajava um terno alugado graças à uma ação entre amigos, pois todo dote que traziam era composto quase só de trabalho, confiança e amizades verdadeiras.

O Sr. A era então motorista de táxi e a Sra. A costurava por encomenda.

Com a chegada do primeiro filho a situação econômica do casal agravou-se; o marido recusou a oferta da família de ambos para morarem de favor, de modo que mudaram-se para um pequeno cubículo, na verdade um porão de uma das antigas casas que ainda se veem no centro velho de Belém. Como a mobília era pouca, couberam com certa folga na morada nova, à qual a Sra. A se esforçava para dar ares de um pequeno castelo imaginário. Só os seus sonhos não cabiam ali.

Certo dia um cobrador de loja bateu-lhe à porta com uma conta vencida. Tão logo soube das dificuldades da família e da impossibilidade momentânea de quitação, o homem pôs-se à gritar na porta de entrada, para quantos quisessem ouvir, que iria mandar buscar os objetos não pagos, à força, se fosse preciso, e que “esses ratos de porão” estavam enganados se pensavam que iriam roubar a loja.

Muitos anos mais tarde, a Sra. A ainda chorava ao lembrar desse dia. Fora a primeira de suas muitas humilhações.

O tempo passou e o Sr. A – que era inteligente e determinado – conseguira emprego como vendedor de sapatos, depois elevou-se a gerente da loja em que trabalhava, depois montou sociedade numa pequena firma de representação no mesmo ramo, e por fim, comprou a parte do sócio e tornou-se o único proprietário da agora pequena empresa, com quase dez caixeiros viajantes a seu serviço.

A situação mudara radicalmente ao longo dos anos para a família, agora com quatro integrantes após o nascimento de uma menina. A Sra. A andava agora melhor composta: Vestida de bons panos, mas não caros; comida à farta e educação razoável para os dois filhos. Entretanto a Sra. A mantinha dentro de si a humildade que trouxera da casa dos pais, e mesmo com a elevação de seu status financeiro, mantinha fielmente as amizades antigas, testadas pelos reveses da vida.

O Sr. A no entanto andava cada vez mais em outras rodas, dizia que era por imposição do ofício, sempre àvido a buscar novos contatos e nichos comerciais. Assim é que seus hábitos mudavam e ele já costumeiramente chegava madrugada adentro no lar, quase sempre cheirando à bebida e a perfumes de mulher. A Sra. A voltara a chorar escondido, tal como fazia depois daquela visita no porão; não comentava nada por diversos motivos, mas sua resignação foi traída quando encontrou os bilhetes no bolso do marido.

Após meses de discussões cada vez mais frequentes, o Sr. A já quase não dormia em casa, decidiram separar-se. A partilha fora feita à moda antiga: Filhos e casa com a esposa, o restante – incluindo uma pequena pensão mensal – ficara a cargo do marido.

Poucos anos se passaram e a conduta do Sr.A com a famíla ia de mau a pior. Muitas vezes equecera de repassar o dinheiro da pensão, o que obrigou a Sra. A à retornar à costura. Certa vez o atraso fora muito, e diante das prestações escolares vencidas, munida dos bilhetes da secretaria do colégio dos filhos fora falar como ex-marido,em busca ao menos de uma promessa. Finalmente encontrou-o num botequim mal afamado, nos braços de uma mulher. Voltou para casa sobre os próprios passos, sem ter tido coragem de aproximar-se.

Um dia o Sr.A apareceu morto na cama de uma prostituta.

A casa que lhe ficara como espólio do casamento – que não chegou a dissolver-se oficialmente – a Sra. A perdeu-a para um banco; assim como a mobília e outros objetos, alienados para saldar dívidas. A Sra. A foi então abrigar-se numa casa de chão batido, tãolonge de Belém como nunca estivera antes.

Numa visita que tive a oportunidade de presenciar, a Sra. A narrou-me esses fatos. Sempre humilde e vestida agora ainda mais simplesmente, porém com decoro e asseio, falou de seus planos para quando o filho mais velho terminasse a faculdade. Ele prometeu resgatá-la e à irmã, assim que tivesse condições para isso.

 

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Delicada Invasão


O que é pior do que acordar e deparar com invasor em sua casa?

Pois hoje fui vítima de uma delicada invasão de propriedade. O meliante abaixo foi flagrado em pleno delito. Sorte dele que minha Dobermann não o viu primeiro, ela tem o costume de estraçalhar (e até comer) os que tem a infelicidade de escolher meu quintal para passear. O último que tento foi um frango do vizinho…pobrecito!!  rss

O meliante.

Investigando sua procedência, descobri que se trata de um bicho de estimação de um vizinho do lado. Com paciência ele roeu os tijolos do muro entre nossos quintais, e finalmente conseguiu seu intento.

Mais gordo, o invasor teve que alargar sua rota de fuga.

 

Preparando-se para escapar…

E o sujeito, demonstrando certo desrespeito, foge e ainda dá uma espiadinha sarcástica e ameaçadora: “Eu voltarei…hahahahaha!”

“Aqui procê!”

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Pneumotórax, abdome cirúrgico e outras mazelas da TV


Assistindo aos últimos episódios da série médica House, me dei conta de quantas séries tem em cartaz, e elas existem para todos os gostos; tem a estranhíssima Carnivàle e suas tramas circenses; tem aquela que o cara tem tres esposas e passa quase o tempo inteiro tomando viagra, disputando mercado com a irmandade e se escondendo da polícia e dos vizinhos. Enfim, tem de tudo um pouco.

Tem séries que não passam de uma variavel um pouco mais animada das antigas sitcoms; como a Two and a half men, que depois da saída do Charlie Sheen perdeu completamente a pouca graça que ainda tinha, claustrofóbicas, as quais raríssimas vezes se passam ao ar livre.

Em todas elas se veem personagens com traços de personalidades tão exageradamente realçados que ficam até caricatos.

Falando agora especificamente sobre a série House, que na minha TV assinada termina hoje, após longos anos em exibição, outro dia soube que em Minas Gerais um grupo de pré-adolescentes resolveu brincar de equipe médica – à moda de Gray’s Anatomy – com um vizinho menorzinho, que foi salvo de uma “cirurgia” de emergência quanto a prestimosa “equipe” dos amigos já se preparava para fazer a primeira incisão…

O maior problema é ter quem ache sintomas de doenças graves numa simples flatulência.

Mas no mundo em que vivemos hoje, é melhor assistir séries as médicas do que as policiais e os westerns, que acham?

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A Mão Cabeluda e outras visagens


Falar sobre visagem é retomar alguns dos maiores terrores da infância. Quem nunca foi ‘agraciado’ com um relato de fantasmas e ficou impressionado com isso?

Na casa de meus pais, mais exatamente debaixo da cama deles, morava uma visagem que eu apelidei de “mão cabeluda”. Não sei exatamente o que ela fazia da vida durante o dia, mas durante a noite sua única função parecia ser me atormentar.

Lá pelas 19 horas, banho tomado, depois do lanche, lá ia eu para meu suplício voluntário. Me atirava de muito londe na cama para não correr o risco de ter os tornozelos agarrados pela criatura do mal; tão logo aterrisava, me punha numa imobilidade digna das estátuas vivas que vemos no centro das cidades, e pior: a colcha da cama de meus pais era de tecido sintético, grosso, e o clima amazônico somado ao meu medo me fazia transpirar à beça, obviamente imóvel, que eu não era bobo de me mexer e chamar a atenção da besta fera sobre mim.

Assim ficava por muito tempo, sofrendo em silêncio, paradão. Rezava pra minha mãe vir fazer alguma coisa no quarto, acender a luz salvadora (a mão cabeluda não se manifestava na presença de adultos, e sob a luz perdia seus poderes), o que quase nunca acontecia.

Engana-se quem pensar que depois de tanto sofrimento e suor eu já não tivesse desenvolvido minhas estratégias de escapatória. A principal – e única, devo admitir – consistia em limpar a mente dos pensamentos de fuga; nenhum movimento antecipatório, nada que a criatura pudesse conhecer de antemão. Desde essa época eu já sabia que a Mão Cabeluda podia ler meus pensamentos quando eu estava sobre a cama. De chofre, sem pensar, dava um salto milimetricamente calculado e me punha a uma distância segura de seu braço enorme e cabeludo…

Suado ainda, ia até a geladeira repor o líquido perdido na transpiração abundante. Minha mãe perguntava o que eu estava fazendo para estar tão suado àquela hora, ao que eu respondia com a resposta-padrão: Nada, Mãe! enquanto já imaginava que minha luta solitária apenas tinha começado naquela noite. Se aproximava a hora de eu ter que ir dormir, e a Mão Cabeluda já podia ter descoberto meu refúgio noturno…

E.J.

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Pescador de mim


 

Há que se ter paciência de pescador para sentar às margens e fisgar a verdade que corre no rio caudaloso das entrelinhas.

(Eddy Santos)

 

Ouvi dizerem que um pescador já nasce feito.  Discordo. Um pescador se forja na lida contínua das águas. Se hoje sou um destro arremessador de anzóis e iscas, perdi a conta de quantas vezes agradeci em silêncio por não ter-me auto fisgado, mas isso foi no começo de tudo.

Agora, em pé numa margem de rio, envolvido pelo silêncio que faz meus pensamentos parecerem estar gritando na cabeça, contemplo as águas e procuro imaginar o que elas contem.

Demorei um pouco pra perceber que o peixe é só um detalhe; o que eu tentava fisgar era o cardume de idéias que nadava no meu mar interior.

Vizinhos


Uma aventura entre muitas paredes

Voce sabia que dia 23 de Dezembro se comemora o Dia do Vizinho? Pois é, essa data existe mesmo, mas nem todo mundo tem o que comemorar. Personagem tão controvertido quanto as sogras, os vizinhos fazem parte da natureza gregária do homem (e ainda mais das mulheres, certo?); e se hoje em dia muita gente gostaria de morar sem ter vizinhos por perto, nem sempre foi assim.

É difícil,  senão impossível, que a humanidade ancestral tivesse sobrevivido isoladamente aos perigos que lhe rondavam, e esses eram muitos;  iam desde feras enormes e famintas até a fome; o leque de possibilidades de morte dos sujeitos isolados era enorme.

A palavra “vizinho” vem do latim vicinu, que significa “próximo, que mora perto, vicinal, da aldeia”.

Entre as piores espécies de vizinhança, as que mais se destacam são:

Os barulhentos: De longe os mais odiados por todos, e muitas vezes os mais temidos também, pois conseguem invadir sua casa através da sua mente, via audição; são eles os maiores responsáveis pelas suas noites mal-dormidas ou insones. Quase sempre vivem em bandos mais ou menos numerosos, e se subdividem em vários sub-grupos, como os gritantes, os DJ’s e os laboriosos.

Os Gritantes são os que desaprenderam ou nunca souberam falar baixo; chamam-se e conversam uns com os outros quase aos berros, o que obriga os vizinhos (voce inclusive) a compartilhar do cotidiano da família, o que acaba te colocando na posição de confidente involuntário.

Os DJ’s são os que nos brindam com sua coleção de músicas em elevadíssimo volume; dessa sub-categoria os que realmente incomodam são os que não respeitam feriados nem dias santos. Para esses não há horário nem repertório  incoveniente. Não raro encontramos DJ’s e Gritantes na mesma residência, numa relação de causa e efeito que extrapola a mera coincidência.

Os Laboriosos são os que exercem suas profissões no ambiente familiar, e são por isso mesmo quase uma categoria à parte, diria “hours concours”, pois na maioria das vezes não há um argumento bom o bastante para transformar uma possível queixa numa demanda válida, exceto talvez no caso de pequenas indústrias domésticas. Como seus horários de trabalho quase sempre coincidem com os nossos, e há a questão da sobrevivência, não chegam a importunar como as duas primeiras sub-categorias.

Os Porteiros: Essa categoria também possui sub-divisões e por vezes é confundida – injustamente – com os Fofoqueiros; se bem administrados, são criaturas inofensivas e úteis, pois são eles quem vigiam seu lar na sua ausência – e na sua presença também. O perigo reside na sua evolução à Fofoqueiros, mas isso depende quase sempre de sua disposição em ouvi-los por horas à fio. Nunca convide um fofoqueiro para sua casa, e evite o mais possível ser visto em sua companhia, pois por mais amenos que sejam os assuntos, os que lhe veem nessa situação podem imaginar que voce está a trocar figurinhas, e – pior de tudo – dá respaldo à acreditarem em qualquer fofoca sobre voce divulgada pelo fofoqueiro. A fama do fofoqueiro se contrai por osmose. Muito cuidado com eles!

O Vizinho Misterioso

É aquele que só encontramos quando estamos entrando ou saindo de nossas casas e apartamentos, na rua, elevador ou garagem – nunca nas áreas de lazer do condomínio; dele pouco se sabe além de seu endereço; resume-se quando muito à um cumprimento matinal; nos temerários dias de hoje suspeita-se logo de um terrorista ou pedófilo – desconfiança pouco razoável, pois muitas vezes sua personalidade socialmente refratária é apenas o esconderijo da sua timidez. Este tipo é ao mesmo tempo o inferno astral e o paraíso do Fofoqueiro, por razões óbvias.

E para não dizer que só falei da parte má, me sinto na obrigação de citar também aquele que é a quintessência da boa vizinhança; o mais puro e refinado ser que porventura existiu – como vizinho – na face da terra: VOCE!

Preciso falar mais?

(Do Redator)