Alice


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Ele andava há muito tempo poraí; tanto que estando parado mantinha a mesma impressão de movimento. Dizendo assim parece que a  aparente imobilidade somente gestava o próximo passo; gestava é forte pra ele, que nunca tivera filhos e, falando francamente toda a verdade, poucas foram as mulheres com quem  lembrava ter dormido, e ainda menos as que achara ao seu lado nas manhãs seguintes. Seguintes também é força de expressão, pois fazia tempo que sua memória reduzia-se, e não dava conta de sua vida por completo. Melhor assim.

– Foda-se!, escovava os dentes pela manhã.

Lia muito e tudo o que lhe caía nas mãos; sempre achara um desperdício o pisar das folhas soltas que bailavam ao vento pelas calçadas, aquelas incertas e libertas como ele mesmo também tinha que ser. Por isso adorava os domingos e as folgas dos garis, então os ventos da cidade sopravam muito muito forte, e os pequenos tornados – formados – levitavam um mundo em espiral diante de seus olhos.

De início tentou fazer coleção; ao cabo de poucos meses os escritos do vento pesavam demais para que ele pudesse carregá-los consigo; então guardou poucos: fotos de aniversário, colações de grau,  necrológios… ele se inteirava das bocas-livres e por isso aprendeu a gostar de ficção, e achava aquela forma – última – a maneira mais violenta e rápida de derrotar alguma verdade de uma vida inteira, em poucas linhas. Guardava para si a esperança de que alguém como ele um dia lesse, num pedaço de jornal trazido pela brisa da manhã: “Morreu Fulano, será cremado às tantas horas, e suas cinzas serão lançadas em lugar incerto…”.

– Então vida e morte seriam fragmentos de notícia que me chegam ao acaso? Pensava, e (L) ia.

Foi num entardecer chumboso que ele a reconheceu sob a marquise: Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez de andarem juntos…Era ela!

Conheceu-a pelos olhos, tristes como os dele mesmo, brilhantes também; tentou em vão levantá-la ilesa da calçada em que ambos jaziam, molhados pela chuva; ela cedeu primeiro, mas só em parte; a outra – de costume – ficaria presa para sempre às duras pedras de lioz.

Encabulada, e com muito custo, revelou-lhe o nome entrecortado.

Eudyr
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Calendas de Janeiro


É possível ter pena de si mesmo; esse caminho é tentador, e tão fácil de trilhar porque não desafia. E onde está a graça nisso? Pensando assim é que olho a pia cheia de louças por lavar; as roupas que se acumulam pelos cabides, usadas à exaustão ou, melhor dizendo, ao limite da educação e da amizade.

Se achando esquecido, Corisco – o gato – nunca demonstrou tanta amizade por mim quanto agora; até parou de me mordiscar quando eu o afago. Sinal dos tempos. Sem dúvida é um animal muito mais inteligente do que eu supunha.

O fogão continua lá, cheio de bocas, gritando em silêncio o desafio das panelas; ligo pra um delivery caseiro e zás…! Problema resolvido, por ora. Melhor não me arriscar em minha própria gastronomia, ou: “Nunca se drogue com sua própria mercadoria”, isso serve para donos de bar e traficantes; para mim também serve, por ora.

Na cama em que ainda não me espalhei, o outro lado se ocupa com tralhas, roupas e coisas que surgem dos bolsos a cada vez que chego da rua. Penso que essa displicência seja a mais proposital de todas…

Foi só quando precisei de um melhor amigo que percebi o quanto eu estava indisponível. Isso explica a estranha sensação de estar seguindo – com atraso – minhas próprias pegadas na areia.

Muita calma nessa hora! rss

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Parque Zoobotânico – Museu Paraense Emílio Goeldi


O mais antigo Parque Zoobotânico do Brasil

Fachada do Pavilhão Domingos Soares Ferreira Pennaa ROCINHA

Fachada do Pavilhão Domingos Soares Ferreira Penna
a ROCINHA

O século XIX foi o auge das expedições naturalistas à Amazônia. Desde os primeiros anos, acorreram à região viajantes ingleses, alemães, franceses, italianos, americanos e russos. A abertura dos portos em 1808, tornou o Brasil mais acessível aos viajantes naturalistas e artistas que vieram com grande entusiasmo para estudar e retratar nossa natureza…

1871 – A segunda metade do século XIX marcou a história da capital do Pará, Belém. No período, a borracha passou a ser o produto mais exportado do Estado, gerando lucros cada vez maiores.

O movimento cultural expandiu-se com o enriquecimento de uma classe ilustrada. A criação de associações culturais, jornais e partidos políticos; a frequente visita de naturalistas, artistas e aventureiros; o embelezamento e urbanização da cidade deram a Belém do Grão-Pará as condições para se tornar a metrópole da Amazônia.

No dia 1º de dezembro de 1900, o Museu Paraense passa a se chamar Museu Goeldi. Em 1930, novamente muda de nome para Museu Paraense Emílio Goeldi.

Em 25/03/1871, o Museu Paraense foi instalado oficialmente pelo Governo do Estado, tendo sido nomeado Domingos Soares Ferreira Penna como seu primeiro diretor.

Quando o 2º Império chega ao fim (1889), a conjuntura política na década de 1880 era bastante complicada… Grupos monarquistas e republicanos brigavam por causas próprias. Domingos Soares Ferreira Penna, republicano, envolveu-se em acirradas disputas políticas, as quais, somadas à sua delicada saúde, não permitiram que o Museu Paraense fosse instalado adequadamente.

Faltava pessoal e apoio para as pesquisas. As coleções acabaram perdendo-se pelas más condições de conservação. A produção científica do nascente museu foi mantida pelos próprios trabalhos de Ferreira Penna, sobre geografia, arqueologia e outros assuntos. A morte do naturalista, nos primeiros dias de 1889, coincide com o fechamento do Museu Paraense.

1891 – Três ilustres republicanos foram responsáveis pela reabertura e reforma do Museu Paraense: Justo Chermont (o primeiro governador republicano), José Veríssimo (diretor da Instrução Pública e mentor da recuperação do museu, iniciada em 1891) e Lauro Sodré (governador a partir de 1893, que prosseguiu na execução do antigo sonho de Ferreira Penna).

Renegando tudo o que pudesse estar vinculado ao Império e influenciados pelo Positivismo, corrente filosófica que valorizava o saber como fato útil, prático e verdadeiro, os homens do início da República perceberam a importância que o Museu Paraense, obra bastarda da Monarquia, deveria ter na nova administração.

O Ciclo da Borracha na Amazônia: De 1890 a 1910, o Pará se tornou o maior exportador de borracha do mundo. Os lucros desse comércio deram a Belém nova fisionomia e novos hábitos.

Apesar do esforço do Governo do Estado em recuperar o Museu Paraense, faltava direção científica e pessoal habilitado. O governador Lauro Sodré manda vir do Rio de Janeiro o naturalista Emílio Goeldi, demitido do Museu Nacional por questões políticas após a Proclamação da República.

O zoólogo suíço assumiu em 09/06/1894 a direção do Museu Paraense. Teria irrestrito apoio do governo para transformá-lo num centro de pesquisa de renome internacional. Com uma nova estrutura, que o enquadraria nas normas tradicionais de museus de história natural, o Museu Paraense ganhou uma produtiva equipe de cientistas e técnicos.

Em 1895, foi criado o Parque Zoobotânico, mostra da fauna e flora regionais para educação e lazer da população. Em 1896, iniciou a publicação do boletim científico, com boa repercussão.

Grande parte da Amazônia foi visitada, onde se fez intensivas coletas para formar as primeiras coleções zoológicas, botânicas, geológicas e etnográficas. Goeldi contratou o excelente pintor e profundo conhecedor do ambiente amazônico, Ernesto Lohse que ilustrou o livro “Álbum de Aves Amazônicas”, com sublimes pranchas. Lohse foi morto em 1930 por revolucionários na porta do museu…

1900 – Na virada do século, o Brasil consolidava suas fronteiras. Nessa ocasião, os limites entre Brasil e França, no norte do Pará, estavam sendo questionados por ambos os países.

As pesquisas que o Museu Paraense iniciava na região, levantando dados sobre a geologia, a geografia, a fauna, a flora, a arqueologia e a população, foram decisivas para municiar a defesa dos interesses brasileiros, representada pelo Barão do Rio Branco.

Em 1º de dezembro, pelo laudo de Berna, na Suíça, sede do julgamento internacional, o Amapá seria definitivamente incorporado ao território do Brasil. Em homenagem a Emílio Goeldi, o governador Paes de Carvalho alterou a denominação do Museu Paraense para Museu Goeldi.

Selo Comemorativo
Centenário do MPEG

Desde 1850, a febre amarela causava muitas mortes em Belém. Dentre as vítimas, dois pesquisadores recém-chegados da Europa para trabalhar na Seção de Geologia do Museu Paraense. Emílio Goeldi decidiu incorporar-se à luta contra a doença. Procurou identificar as principais espécies de mosquitos da Amazônia, o ciclo reprodutivo e biológico desses insetos.

As pesquisas intensificaram-se a partir de 1902, quando Goeldi publicou no Diário Oficial os meios de profilaxia e combate à febre amarela, malária e filariose, antecedendo as recomendações do médico Oswaldo Cruz quando esteve em Belém, em 1910.

073

1907 – Depois de 13 anos de atividades incessantes em Belém, Emílio Goeldi retirou-se. Doente, retornou à Suíça, onde veio a falecer em 1917, aos 58 anos. 

Emílio Goeldi

Nesse período, o Museu foi reestruturado e ganhou o respeito internacional. Foram desenvolvidas pesquisas geográficas, geológicas, climatológicas, agrícolas, faunísticas, florísticas, arqueológicas, etnológicas e museológicas. O papel educacional do Museu foi reforçado com o parque zoobotânico, publicações, conferências e exposições.

A partir de 1931, investimentos regulares na ampliação e equipagem do Parque Zoobotânico o tornaram reconhecido nacionalmente. Chegou a abrigar 2.000 exemplares de animais vertebrados, de centenas de espécies da região, muitas das quais raras ou pouco conhecidas. Esse crescimento foi possível graças à subvenção que o Governo Estadual impôs às prefeituras do interior, obrigando-as a remeter mensalmente animais e parte de sua arrecadação ao Museu Goeldi.

Muitas espécies foram reproduzidas em cativeiro com sucesso, em especial répteis e peixes. Somente nos três primeiros anos de coletas sistemáticas, foram descritas cinco novas espécies de peixes, inclusive um gênero novo.

O MPEG modernizou-se

O Goeldi é guardião de 4,5 milhões de itens tombados distribuídos entre os acervos zoológico, botânico e geológico, onde estão armazenados exemplares de peixes, aves, répteis, anfíbios, mamíferos, insetos, madeiras, tecidos vegetais, pólen, frutos, minerais, rochas e aracnídeos. Seu acervo antropológico possui curadorias voltadas para arqueologia, etnografia e linguística indígena.

ALCINDO, o Jacaré-açú de 65 anos de idade, provavelmente o mais velho de sua espécie

ALCINDO, o Jacaré-açú de 500kg, 65 anos de idade, provavelmente o mais velho de sua espécie

Gaviões Reais  - Os maiores predadores alados do mundo

Gaviões Reais – Os maiores predadores alados do mundo
Topo da cadeia alimentar

EXTRAS

Fontes:

Texto: http://www.girafamania.com.br/introducao/zoo_goeldi.htm

Fotos: Acervo do Blog Tapirus

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Belém, 397 anos


A conquista do Norte foi determinada pelo rei de Espanha e Portugal. Visava, inicialmente, desalojar, do Maranhão, os franceses que ali haviam criado a França Equinocial. E em 1614, Jerônimo de Albuquerque segui à frente da tropa, para cumprir aquela missão. Em 1615, já com Alexandre de Moura liderando as tropas lusas, houve a capitulação definitiva. Após a vitória, Moura nomeou Albuquerque governador do Maranhão e encarregou o militar e explorador português Francisco Caldeira de Castelo Branco (-1619) de conquistar o Pará.

Embarcação tipo PATACHO

Embarcação tipo PATACHO

A 25 de dezembro de 1615 a expedição partiu da baía de São Marcos, composta do patacho Santa Maria da Candelária, do caravelão Santa Maria das Graças e da lancha grande Assunção. Compunha-se de 150 homens, 10 peças de artilharia, pólvora e muita munição e mantimentos. O piloto-mor era Antônio Vicente Cochado, o francês Charies servindo de guia. As três embarcações eram comandadas por Pedro de Freitas, Antônio da Fonseca e Álvaro Neto. A viagem sem incidentes durou 18 dias. E a12 de janeiro de 1616 os portugueses aportaram na baía de Guajará, chamada pelos nativos de Paraná-Guaçu.

“A Fundação de Belém”, de Theodoro Braga.

Primeiramente depois que ò capitaom maior, Alexandre de Moura deu fin no Maranhaom à ò enemigo como fez, è tendo à terra pacifica, è povoadas as fortalezas como lhe pareceo necessario, pos por obra mandar fazer este novo descobrimento do grande Rio das Amazonas, è pera tambem se saver ò que avia no Cavo do Norte, conforme à ordem que pera isso levava do Governador Geral do Brasil Gaspar de Souza; è asi mandou 150 homens em tres companhias, è por capitaom mor dellas à Francisco Caldeira de castel branco em tres embarcazoens. Partimos para esta jornada dia de Natal pasado, em que deu principio à esta era de 1616.”

Embarcação tipo CARAVELÃO

Embarcação tipo CARAVELÃO

“chegando no sitio à onde fizemos fortaleza por el Rey nosso senhor, que será 35 leguoas pello Rio asima pera ò Sul, por parecer elle à ò capitaom mor bom sitio.”

“Há neste Rio em todas as partes delle muito Gentio por extremo de diversas nazoens, ò mais delle mui bem encarado sem barba, trazem os homens cabello comprido como molheres, è de mui perto ò parecem de que pode ser nasceria o emgano que dizem das Amazonas; pois naom há outra cousa de que à este proposito se pudesse deitar maom.”

(PEREIRA, André. A “Relazoam do que há no grande rio das Amazonas novamente descuberto” do Capitão André Pereira (16160). In: PAPAVERO, Nelson et. al. O Novo Éden… Belém: Museu Paraense Emilio Goeldi, 2002. 2ª ed.p. 111.)

Fonte: Blog Pará Histórico

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Belém, 7 de Janeiro de 1835: O dia em que os servos se tornaram senhores.


Saiba mais sobre o levante popular da Cabanagem

A miséria e a submissão imposta pelo Império levaram às armas a população de Belém. Um dos maiores levantes do período, a Cabanagem transformou servos em senhores…

Texto: Fred Linardi

Era noite de festa de Reis no Brasil Império e o povo de Belém festejava ao luar. Autoridades portuguesas e famílias poderosas brindavam na noite de gala do Teatro da Providência. Do lado de fora, estava armado o palco de uma guerra anunciada. No dia 6 de janeiro de 1835, aproveitando a distração geral pela data santa, mais de 1 000 guerrilheiros empunhando espingardas, mosquetões, foices, terçados e espadas se escondiam nas matas ao redor da cidade, cortada por igarapés. Moradores de Belém misturavam-se a combatentes vindos do interior. Chegaram à capital no começo do ano e já planejavam o ataque.

À saída do teatro, o presidente da província, Bernardo Lobo de Souza, foi para a casa da amante. Demorou a perceber o caos na cidade. Esgueirando-se pelos quintais, de casa em casa, conseguiu ficar escondido até o início do outro dia. Quando saiu à rua, foi morto à bala por um índio tapuio. Caiu em frente ao palácio do governo, tomado pelos cabanos durante a madrugada. Comerciantes, fazendeiros e intelectuais apartados das decisões na província lideraram a ofensiva dos tapuios (índios que abandonaram suas tribos), negros escravos e libertos, mamelucos, cafuzos, mulatos, mestiços e também brancos. Entre tantas origens diferentes da massa que surpreendeu os soldados aliados à Regência, uma característica comum batizou a revolta. Muito pobres e explorados na economia extrativista da região, os rebeldes moravam em cabanas simples de barro, cobertas de palha. A Cabanagem (1835-40) combateu o domínio do Império e da elite portuguesa local, acostumada aos privilégios coloniais. A população buscava melhores condições de vida e reclamava da tirania do governo do Grão-Pará, imposto pelo poder central no Rio de Janeiro. Não foi difícil para um grupo de proprietários e religiosos cooptar os mais necessitados sob a bandeira da luta pela autonomia da província. Mais próxima de Lisboa do que do Sudeste, Belém resistiu a aderir ao Brasil independente. Não aceitava as ordens vindas da nova capital do Império, o Rio. A instabilidade política se arrastava havia vários anos.

A revolta estourou depois da morte do cônego João Batista Campos. Ameaçado após sucessivas brigas públicas com Bernardo Lobo de Souza, ele fugiu da cidade no fim de 1834. Uma infecção no rosto provocada por um acidente com uma lâmina de barbear matou o religioso enquanto ele estava foragido. Para os cabanos, a culpa era do presidente.

Há quem compare a tomada do palácio do governo pelos cabanos à Queda da Bastilha, marco da Revolução Francesa na Paris de 1789. Era grande a presença de estrangeiros na região. A França costumava exilar prisioneiros contrários ao regime vigente na vizinha Guiana Francesa. No livro A Miserável Revolução das Classes Infames, o historiador Décio Freitas relata o testemunho de Jean-Jacques Berthier, um exilado francês que vai a Belém e se une ao movimento. “Na época havia, sim, um temor do Império quanto à aproximação das camadas populares, principalmente dos escravos e índios, com os franceses. Mas a Revolução Francesa saiu vitoriosa, enquanto o triunfo da Cabanagem está mais na memória”, diz Eliana Ferreira, historiadora e pesquisadora na Universidade Federal do Pará.

A partir de Belém, os rebeldes conseguiram manter o controle da província por pouco mais de um ano.

Intrigas e traições entre os líderes causaram tanto prejuízo quanto as tropas inimigas. O governo cabano nasceu de uma culminância de movimentos formados ao longo dos anos anteriores. Os vários setores que se juntaram ao levante fizeram sua força, mas não demorou para que as divergências aparecessem. O primeiro presidente indicado, Félix Malcher, simpático ao Império, foi chamado de traidor e assassinado em meio à disputa de poder com o comandante de armas, Antônio Vinagre. O cadáver foi arrastado pelas ruas, a exemplo do que acontecera com Bernardo Lobo de Souza. Antes de completar 45 dias o governo cabano já tinha um novo chefe: Francisco Vinagre, irmão de Antônio.

Ao todo, três líderes rebeldes presidiram a província. Já na primeira gestão, uma moeda antiga passou a ser reutilizada e só valia no estado. Cabanos se apropriaram de casas de famílias portuguesas ou ligadas ao antigo regime. “Em algumas fazendas, castigaram os senhores com as mesmas torturas que haviam sofrido antes. O porte de arma foi legalizado, o que dava aos cabanos a sensação de realmente pertencerem à cidade. Isso tudo representava uma grande mudança no cotidiano”, diz Ferreira. Mas em nenhum momento eles conseguiram consenso em torno de um projeto viável de governo.

Caos

A situação de Belém foi se tornando deplorável. Destruída pelos combates, enfrentou epidemias de varíola, cólera e beribéri. A população passava fome. A cidade ficou cercada por escunas e fragatas ligadas ao Império, onde se instalaram políticos e militares foragidos. O primeiro contra-ataque provocou a fuga dos cabanos para o interior. A ofensiva teve a ajuda do presidente Francisco Vinagre, em outro exemplo dos interesses contraditórios dentro do movimento. Os rebeldes resistiram sob o comando do irmão dele e de Eduardo Angelim. Em pouco tempo eles retomaram a capital e, aos 21 anos, Angelim assumiu o poder. Último presidente cabano, foi derrotado nove meses depois pela poderosa esquadra do brigadeiro Francisco José Soares de Andrea.

Angelim fugiu novamente da cidade, mas foi capturado e deportado. A violenta caça aos cabanos pela Amazônia prosseguiu até 1840. “Nesse período, a Cabanagem continua de forma que ainda não se sabe ao certo. Havia fortes lideranças em cidades como Vigia e Santarém, mas os estudos precisam ser aprofundados”, afirma Ferreira. Mais de 30 mil rebeldes foram executados, um terço dos habitantes da província. A tortura era comum. Militares exibiam colares feitos com orelhas secas de cabanos.

No fim da revolta, Belém só tinha mulheres, crianças e idosos. A participação feminina nas conspirações e combates é foco de estudos recentes. Muitas mulheres foram atacadas e violentadas, do lado cabano e das famílias ligadas à Regência. Não há provas de que elas tenham participado das frentes de batalha, mas é certo que atuaram nos bastidores. “Um dos exemplos é a dona Bárbara, uma viúva de militar que foi até a corveta Defensora munida de moedas de ouro. O navio abrigava presos políticos.” Eliana Ferreira sugere que ela tenha tentado comprar a liberdade de rebeldes. Parte do trabalho de troca de informações e suprimento de comida para os cabanos era feita por mulheres.
Mesmo sangrenta, a Cabanagem (1835-40) foi o mais bem-sucedido levante popular brasileiro.

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A Diáspora Cabana


“A revolução social dos cabanos que explodiu em Belém do Pará, em 1835, deixou mais de 30 mil mortos e uma população local que só voltou a crescer significativamente em 1860. Este movimento matou mestiços, índios e africanos pobres ou escravos, mas também dizimou boa parte da elite da Amazônia.

O principal alvo dos cabanos era os brancos, especialmente os portugueses mais abastados. A grandiosidade desta revolução extrapola o número e a diversidade das pessoas envolvidas. Ela também abarcou um território muito amplo. Nascida em Belém do Pará, a revolução cabana avançou pelos rios amazônicos e pelo mar Atlântico, atingindo os quatro cantos de uma ampla região. Chegou até as fronteiras do Brasil central e ainda se aproximou do litoral norte e nordeste. Gerou distúrbios internacionais na América caribenha, intensificando um importante tráfico de idéias e de pessoas.

Contrastando com este cenário amplo, a Cabanagem normalmente foi, e ainda é, analisada como mais um movimento regional, típico do período regencial do Império do Brasil. No entanto, os cabanos e suas lideranças vislumbravam outras perspectivas políticas e sociais. Eles se autodenominavam “patriotas”, mas ser patriota não era necessariamente sinônimo de ser brasileiro. Cabanos era o termo utilizado como alcunha dos homens que viviam em casas simples, cobertas de palha. O mesmo nome cabano também significa um tipo de chapéu de palha comum entre o povo mais humilde na Amazônia.

 Este sentimento fazia surgir no interior da Amazônia uma identidade comum entre povos de etnias e culturas diferentes. Indígenas, negros de origem africana e mestiços perceberam lutas e problemas em comum. Esta identidade se assentava no ódio ao mandonismo branco e português e na luta por direitos e liberdades.”

 

Texto: Introdução do artigo “Cabanagem, cidadania e identidade revolucionária: o problema do patriotismo na Amazônia entre 1835 e 1840” – Profa.Dra. Magda Ricci, 2006

Fotos: Blog O passado é um país estrangeiro

 

Rumo ao Oeste

A Cabanagem, rebelião popular que ocorreu na província do Pará de 1835 a 1840, foi violentamente reprimida pelas tropas legalistas. O enfrentamento causou um grande número de baixas – aproximadamente 30 mil pessoas – e, na esperança de escapar das regiões de conflito, parte da população local traçou rotas de migração. Os escravos transformados em soldados para lutar contra os cabanos aproveitaram a oportunidade de fugir e, deste modo, também se tornaram desertores.

Inicialmente, quem deixava seu lugar de origem se estabelecia ao longo do curso dos rios ou seguia para a província de Mato Grosso. Dessa forma, os desdobramentos do conflito possibilitavam a ligação entre regiões imensas, pois, apesar de serem limítrofes e manterem relações comerciais desde o período colonial, eram geograficamente distantes.

O presidente da província, Antônio Pedro de Alencastro (1834-1836 e 1859-1862), demonstrou sua preocupação com a chegada dos “anarquistas do norte” ao reunir uma tropa com poder de polícia, que chamou de “Cívicos da Reserva”. Uma de suas funções era zelar pela tranquilidade em Cuiabá e repelir a entrada de indivíduos vindos do Pará. Mesmo assim, esses escravos traçaram rotas de fuga que se estenderam por limites ainda mais amplos, ultrapassando as fronteiras do Império.

Nas fugas para o exterior, um dos destinos escolhidos pelos cativos foi a República da Bolívia, que conquistou sua independência em 1825, depois da batalha de Ayacucho. Logo após o advento da República, houve a proibição do comércio internacional de escravos e a abolição do regime de trabalho servil. A adoção do princípio de “território livre”, segundo o qual os homens se desprendiam dos grilhões da escravidão no momento em que pisavam no solo de um país que não adotasse essa prática, serviu de estímulo e deu esperança aos escravos fugidos.

 

Texto: Cristiane Kozlowsky, Newman di Carlo Caldeira e Rafael de Almeida Daltro Bosisio

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Cabanos


Ainda que os teus pés pisem mil anos neste lugar, não apagarão o sangue dos que aqui caíram, e não se extinguirá a hora em que caístes.

Ainda que mil vozes cruzem este silêncio.

(Neruda)

 

Fotos: II Encontro da Cabanagem – Cuipiranga-Santarém-Pará, 2012

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Cuipiranga: O Rosário Cabano dos Mundurucús


Os Mundurucus foram fundamentais no cerco de Cuipiranga . Sem eles, não teria dado certo. Motivo: não havia “legais” suficientes para a luta. Os “homens da cidade e das guardas” haviam sido mortos ou passado para o lado dos cabanos. Outros fugiram e não voltaram. Para compor uma força de guerra contra os cabanos o jeito foi recorrer a um inimigo natural: os índios Mundurucu.

Sim, os mundurucu formavam, em sua origem, uma tropa de índios de corso, sempre em luta contra outras tribos. Os cabanos, em sua maioria, eram descendentes das tribos inimigas dos mundurucus (maués, arapiuns, comarus, tubinambaranas etc…). Para completar, o Padre Antonio Sanches de Brito organizou os mundurucus da missão de Juruti para a luta. Toda a nação foi mobilizada pelos tuxauás, que estavam sobre o comando do padre.

Como os mundurucus tinham o costume de “cortar as cabeças dos vencidos” o saldo foi o que hoje chamamos de “rosários cabanos”. Cabeças e mais cabeças de derrotados foram enviadas à capital. Outras fizeram parte do ornamento preferido dos mundurucus, um verdadeiro troféu de guerra, o PARINÁ, que nada mais é do que a cabeça mumificada dos inimigos derrotados na guerra.

Inclua-se, portanto, na história que não foram somente os “legalistas” que “ganharam” (?) a cabanagem. Os Mundurucus também. Graças a influência de um padre obidense que se intilulava em suas cartas contra os cabanos como “Juiz de PAZ e acérrimo INIMIGO dos Ladrões”.

Fonte: Blog do Jesu
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Cabanagem: A Tomada do trem de Guerra


“A herança cabana mais evidente e rica está na lucidez com que o povo paraense percebe continuidades seculares entre seu mundo e o dos cabanos de 1835.”

 

"A tomada do trem de guerra", de Alfredo Norfini

“A tomada do trem de guerra”, de Alfredo Norfini

A Batalha dos Mercedários

“O local foi importante porque ao lado existia o Trem de Guerra, que era o local onde se guardavam os armamentos e munições. Durante a segunda tomada de Belém em agosto de 1835 os cabanos tinham o Trem como um alvo estratégico. Numericamente os revolucionários eram maioria, mas suas armas e munições eram escassas. O Trem de Guerra era o local onde a tomada da cidade se decidiria. A luta em frente à Igreja dos Mercedários foi sangrenta, pois além de demorar horas para os cabanos derrubarem o portão do Trem, lá dentro foi armada uma emboscada: os soldados anti-cabanos estavam postos no andar superior com todas as armas e munições e, quando finalmente os cabanos invadiram a parte inferior do prédio derrubando o forte portão de entrada, lá do alto os anti-cabanos atiram e mataram tantos cabanos quantos puderam até que os corpos dos mortos fizeram volume suficiente para os cabanos ainda vivos escalassem a altura do segundo piso. Conclusão: foi uma cena dantesca. Além disso, foi neste processo que os anti-cabanos mataram o maior líder cabano. No contexto da tomada do Trem caiu morto Vinagre e assumiu o poder Eduardo Angelim. Certamente foi um momento marcante para os cabanos.”

(Magda Ricci-Historiadora, em entrevista à Professora Edilza Pontes)

A Igreja das Mercês - em 2/01/2013

A Igreja das Mercês – em 2/01/2013

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Batista Campos está morto: Viva a Revolução Cabana!


 

João Batista Gonçalves Campos nasceu em 1782, na Vila do Acará, em Barcarena, nordeste do Pará, e morreu em dezembro de 1834. Além de cônego,  Batista Campos foi jornalista e advogado. Consagrou-se um importante ativista político da história do Pará, desde a época que antecedeu a Independência do Brasil até as lutas partidárias que culminaram com a explosão do movimento da Cabanagem (1835-1840), ocorrido durante o período da regência provisória. Foi ordenado sacerdote pela Igreja Católica em 1805.
Autor intelectual da Cabanagem e autor de ‘O Paraense’, primeiro jornal publicado em Belém. Na administração pública, foi vice-presidente do Conselho do Governo da Província do Grão Pará e fez parte da Junta Provisória do Governo, no período de 18 de agosto de 1823 a 30 de abril de 1824.

Na passagem da Adesão do Pará à independência- 1823, Batista Campos foi amarrado à boca de um canhão aceso pelo mercenário e assassino inglês John Grenffel, depois de descoberta a farsa que garantiu às elites portuguesas a manutenção do poder lusitano apesar da adesão.

Em 1834, fugido da repressão da elite portuguesa de Belém, enquanto fazia a barba, Batista Campos provocou, por descuido, um corte profundo em uma espinha no rosto por intermédio da navalha que usava. O ferimento ocasionou a morte de Batista Campos em 31 de dezembro de 1834. Seu corpo foi enterrado na Vila de Barcarena e, mais de 150 anos depois, em 1985, seus restos mortais foram retirados do local de sepultamento, colocados em uma urna, e levados em carreata pela cidade de Belém, na comemoração dos 150 anos da Cabanagem, sendo posteriormente carregados a um monumento comemorativo na capital paraense.

A morte do Cônego foi atribuída à perseguição que os nacionalistas paraenses sofriam desde o episódio do Brigue Palhaço;  foi o estopim para o levante de 7 de Janeiro daquele ano, e o início da primeira revolução popular bem sucedida das américas, e única do período regencial brasileiro a chegar efetivamente ao poder, a CABANAGEM.

Alguns historiadores atribuem as fraquezas da Cabanagem à ausência de um líder ideológico, e este era sem dúvida Batista Campos. Sua morte – à um só tempo – teria feito eclodir  e fracassar o levante popular de 7 de Janeiro. (N.E.)

 

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Entre ontem e amanhã


Editorial

O apagar das luzes dos anos sempre nos conduzem à reflexão, ao balanço geral do período; muitas vezes extrapolamos e passamos a limpo grandes etapas, não raro, uma vida inteira.
Quando pensei em escrever esse editorial a ideia central que me movia eram os fatos políticos brasileiros, e toda a indignação que a AP 470 impôs aos cidadãos de bem desse país – via STF.
Confesso que escrevi um arrazoado sobre o tema, que depois de lido foi achado bom, mas outras inquietações perpassavam minha mente; não diria mais profundas, porém mais básicas.
De todos os banquetes de fatos que podemos degustar, desse e de anos passados e vindouros, restará sempre um travo, um ranço quase inexplicável, que só o fazer humano é capaz de conferir. Olhando pelas retinas da história enxergo claramente o quão mesquinhos e grandiosos são esses fazeres. Desapaixonadamente falando, e copiando Saint Exupèry, “O essencial é invisível aos olhos”, emendo: Mas não ao coração.
Dito isso, poderia pregar o desapego material como fonte de todas as virtudes, a cornucópia da felicidade; mas se tratando de gente real, não poderia ser tão simples, nem tão complicado. A imagem que me vem à mente é a de uma pessoa que chora emocionada por uma conquista; que se expõe à morte em prol de outrem, rifando nisso a própria existência. Não sei dizer se algumas dessas imagens se referem aos fatos ou à arquétipos, mas no meu entender são a pedra angular do que há de mais importante na vida.
Falo de sentir, talvez por isso seja tão difícil explicar, mas creio que definir seja desnecessário.
Aos que possam estar pensando tratar-se de um arroubo sazonal, me antecipo: Isso ocorre o ano todo. Felizmente ou não, só é externado pela maioria nesse período de festas que vai do Natal ao Ano Novo. Alguns podem argumentar que é um comportamento mais ou menos socialmente condicionado; e não estarão tão longe da verdade; mas se o gesto não é estranho à natureza humana, é passível de ampliação, de multiplicação.
Talvez nos falte sermos pastores de nossos próprios espíritos, corresponsáveis e solidários. Ser agnóstico é uma conquista, ser ateu – por definição – é um desafio insuperável.
As tradições tem peso de lei; não raro são guindadas à essa condição; por isso me despeço desejando que no ano que chega os brasileiros revoguemos definitivamente a “Lei de Gérson”, e que ao menos consigamos ser felizes com nossas próprias limitações.
Feliz 2013!
Eudyr.

por eudyr Postado em COISAS